Os Miseráveis

Os Miseráveis | Les MisérablesDividido em cinco volumes, “Os Miseráveis” é a obra mais notável do francês Victor Hugo. Através de seu protagonista Jean Valjean, a história mergulha intensamente em uma França tomada pela miséria, motins e descrença. Ao ser certeiro em capturar um período histórico com personagens sofridos, “Os Miseráveis” obteve inúmeras adaptações cinematográficas, televisivas e teatrais desde o início do século passado. O musical composto por Claude-Michel Schönberg foi a versão que mais repercutiu mundialmente e é nela que Tom Hooper se inspira para fazer o seu “Os Miseráveis”.

Com libreto de Alain Boublil e letras de Herbert Kretzmer, o musical iniciou uma trajetória de sucesso em 1980 que agora se estende nos cinemas: produzido com 60 milhões de dólares, “Os Miseráveis” está prestes a atingir a marca de 400 milhões de dólares de arrecadação mundial, uma marca surpreendente para um musical, gênero que ainda provoca estranheza no público em geral. Além do mais, a obra aparecerá no Oscar em oito categorias, entre as quais filme, melhor ator (Hugh Jackman) e melhor atriz coadjuvante (Anne Hathaway).

Após o reconhecimento com “O Discurso do Rei”, fica clara a intenção de Tom Hooper em fazer um verdadeiro épico. No entanto, tropeça em vários aspectos, rendendo uma adaptação desastrosa. Todo cantado, “Os Miseráveis” inicia com a libertação de Jean Valjean (Jackman) após cumprir 19 anos de prisão por roubar um pedaço de pão e tentativa de fuga. Ficará em seu encalço Javert (Russell Crowe), inspetor obstinado em condenar Valjean pelos anos que ainda viverá. Valjean consegue mudar de vida ao assumir uma nova identidade: Monsieur Madeleine, o rico prefeito e empresário da cidade de Montreuil-sur-Mer.

Neste momento, em que oito anos já se passaram, surge Fantine (Hathaway), a trágica jovem que definirá o destino de Jean Valjean e outros personagens secundários. Operária de uma das fábricas de Valjean, Fantine é punida severamente ao ter o seu maior segredo revelado: a existência de uma filha, Cosette (Isabelle Allen), mantida pelos Thénardiers (Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter, alívios cômicos que funcionam), donos de uma decadente hospedaria. Convertida em prostituta, Fantine é encontrada por Valjean em estado frágil. Ao vê-la morrer, Valjean, assolado por um sentimento de culpa por não tê-la defendido quando precisou, promete que resgatará e cuidará de Cosette. Mais alguns anos se passam e já temos uma Cosette adulta (e vivida por Amanda Seyfried) e protegida de uma França ainda mais lastimável por Valjean.

Em “Os Miseráveis”, Tom Hooper impôs uma exigência muito arriscada: fazer com que todos os intérpretes cantassem ao vivo. Ao contrário do que anda sendo afirmado, esta não é uma escolha inédita no gênero, mas é corajosa. Como se espera, o resultado é destoante. Enquanto Hugh Jackman, Anne Hathaway e Samantha Barks apresentam trabalhos vocais quase extraordinários, Russell Crowe e Amanda Seyfried (visivelmente desconfortáveis) atingem uma entonação de fazer o espectador implorar pela distribuição de protetores auriculares nas salas de cinema.

Este desencontro de talentos na tela é o menor dos problemas de “Os Miseráveis”, entretanto. Tom Hooper é incapaz de contornar as fragilidades da obra de Victor Hugo, como a inconvincente história de amor que se desenha entre Cosette e o revolucionário Marius (Eddie Redmayne) após uma mera troca de olhares e as transições de tempo, e esbarra na breguice com sua inconveniente direção. Além de planos diagonais bisonhos, “Os Miseráveis” preenche a tela com closes manipuladores de personagens que apenas soluçam. A tão comentada cena em que Anne Hathaway canta “I Dreamed a Dream” é apenas o prenúncio de um drama que usa os métodos mais deselegantes para arrebatar o público.

Título Original: Les Misérables
Ano de Produção: 2012
Direção: Tom Hooper
Roteiro: Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg, Herbert Kretzmer e William Nicholson, baseado no romance homônimo de Victor Hugo e no musical homônimo de Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer
Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Eddie Redmayne, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Samantha Barks, Aaron Tveit, Colm Wilkinson, Ella Hunt, George Blagden, Daniel Huttlestone, Bertie Carvel, Isabelle Allen, Frances Ruffelle, Alistair Brammer, Evie Wray, Kerry Ellis, Tim Downie, Killian Donnelly e Alexander Brooks

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2 Respostas para “Os Miseráveis

  1. Muito cansativo e decepcionante.
    Só não concordo que Hugh Jackman estivesse à vontade. Ele é um excelente ator e canta melhor do que os companheiros de cena, mas não está muito confortável como tenor.
    E a paixão de Cosette e Marius é bem diferente no livro. Não é só a troca de olhares que Tom Hooper imaginou.
    Filminho dispensável!

  2. Ao contrário de você, apreciei bastante “Os Miseráveis”. Considero o segundo melhor filme indicado ao Oscar 2013 da categoria, neste ano. Um trabalho notável de Tom Hooper, com decisões narrativas bem interessantes (o uso de close-ups nos números musicais e a gravação desses mesmos números ao vivo) e uma parte técnica sensacional. O elenco do filme, pra mim, é um dos melhores já reunidos no gênero musical. Só acho o roteiro meio inconstante. Aquele ato envolvendo o levante popular, com Marius e seus amigos, é totalmente dispensável. Mas, mesmo assim, “Os Miseráveis”, pra mim, foi um verdadeiro espetáculo.

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