Retrospectiva 2012

Ao conversar com alguns colegas em dezembro, percebi que todos não estavam plenamente satisfeitos com o que o cinema pôde oferecer ao longo de 2012. Apesar dos bons títulos exibidos entre janeiro e março, realmente não houveram tantos filmes que valessem a ida ao cinema, especialmente no segundo semestre. Ao refletir sobre este incômodo, não pude deixar de iniciar 2013 fazendo uma rápida retrospectiva do que aconteceu no cinema no ano passado. Os principais destaques vocês podem ver a seguir.

Os Mercenários 2

A NOSTALGIA QUE INVADIU O CINEMA EM 2012

O cinema contemporâneo recicla constantemente os elementos que asseguraram o sucesso de filmes do passado, às vezes como homenagem, às vezes como refilmagem. Em 2012, as coisas não foram diferentes, mas houve neste ano em particular uma nostalgia exacerbada. Uma das obras-primas do holandês Paul Verhoeven, “O Vingador do Futuro” ganhou uma refilmagem com cenários que remetem a “Blade Runner – O Caçador de Androides”. Responsável por “Alien – O Oitavo Passageiro”, Ridley Scott fez “Prometheus”, prequel da franquia estrelada por Sigourney Weaver. Já o musical “Rock of Ages – O Filme” tentou (sem sucesso) resgatar o espírito rock n’ roll oitentista. Nesta tendência, quem se saiu melhor foi Sylvester Stallone, que em “Os Mercenários 2” fez não apenas uma sequência que supera a obra original, mas uma oportunidade de reunir astros do passado como Jean-Claude Van Damme, Chuck Norris e Arnold Schwarzenegger. Há também de se mencionar “007 – Operação Skyfall”, capítulo que comemora os cinquenta anos da franquia ao trazer um James Bond em crise com a idade e antiquado nas artimanhas usadas para derrubar o inimigo interpretado por Javier Bardem.

A Invenção de Hugo Cabret | O Artista

“A INVENÇÃO DE HUGO CABRET”, “O ARTISTA” E OS PRIMÓRDIOS DO CINEMA

Em termos de popularidade, não houve filmes mais comentados em 2012 do que “A Invenção de Hugo Cabret” e “O Artista”. O falatório não se concentrou apenas na disputa dos filmes de Martin Scorsese e Michel Hazanavicius no Oscar, mas no valor que estes dois títulos agregam quanto ao interesse pelas origens da sétima arte. Em tom de aventura para toda a família, Scorsese presta a sua homenagem ao cinema ao focar a triste história de um órfão que conhece um Georges Méliès, realizador de “Viagem à Lua”, distante dos seus dias mais gloriosos. Já Hazanavicius analisa as consequências da transição do cinema mudo para o cinema falado através da figura de George Valentin, maior astro de Hollywood que não responde adequadamente a esta mudança.

O Artista [Oscar]

A CONSAGRAÇÃO DE “O ARTISTA” NO 84° OSCAR

Nada contra “Quem Quer Ser Um Milionário”, “Guerra ao Terror” e “O Discurso do Rei”, mas já era hora de um filme realmente excelente vencer o Oscar. Isto aconteceu na última edição do evento, que rendeu a “O Artista” os prêmios de melhor filme, melhor direção, melhor ator, melhor trilha-sonora e melhor figurino. Seu maior oponente, “A Invenção de Hugo Cabret”, somou cinco vitórias, mas apenas em categorias técnicas. Embora a tensão se concentrasse no embate entre o filme de Hazanavicius e Scorsese, a edição reservou surpresas bem agradáveis. Ao contrário de suas participações anteriores, Billy Crystal não empolgou nem um pouco como anfritrião da festa, mas os discursos de vitórias representaram os grandes momentos da noite. Destaca-se Meryl Streep, que após anos e mais anos de indicações finalmente conquistou o seu terceiro Oscar por “A Dama de Ferro”. O vacilo da edição foi o esquecimento da interpretação arrasadora de Tilda Swinton em “Precisamos Falar Sobre o Kevin” – a vaga foi ocupada pela superestimada Rooney Mara, que faz uma Lisbeth Salander inferior àquela incorporada por Noomi Rapace na versão sueca de “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. Em tempo: das premiações pré-Oscar, não deixe de conferir também os comentários sobre os vencedores do último Globo de Ouro e Independent Spirit Awards.

Trilogia Jogos Vorazes

ADOLESCENTES COMO PÚBLICO-ALVO

Com o mercado de literatura juvenil se fortalecendo a cada dia, alguns produtores espertos têm buscado por best-sellers que podem repetir o sucesso nos cinemas com uma adaptação. As franquias “Harry Potter” e “A Saga Crepúsculo” foram concluídas recentemente e registraram números arrasadores nas bilheterias mundiais. Por tudo isto, não poderíamos deixar de relembrar a febre que virou a trilogia “Jogos Vorazes”, suja adaptação cinematográfica foi bem acolhida pelo público e crítica. Só nos Estados Unidos, “Jogos Vorazes” arrecadou mais de 400 milhões de dólares. A recepção comprova que em 2012 o cinema finalmente descobriu como atrair a garotada, lidando com universos em que os anseios da adolescência estão presentes. Como consequência, 2013 estará recheado de novas adaptações de livros juvenis. Entre eles, “A Hospedeira” (cujo romance é escrito pela mesma Stephenie Meyer de “Crepúsculo”), a sequência de “Percy Jackson e o Ladrão de Raios” e o próprio “Em Chamas”, que dá continuidade à história de “Jogos Vorazes”.

Taylor Kitsch

TAYLOR KITSCH: ESTRELA CADENTE DE HOLLYWOOD

Com astros como Johnny Depp, Brad Pitt e Tom Cruise envelhecendo, Hollywood parece desesperada em selecionar jovens intérpretes que tenham o poder de conquistar o grande público e se tornarem ídolos. Neste ano, duas super-produções apostaram todas as fichas no canadense Taylor Kitsch, protagonista de “John Carter – Entre Dois Mundos” e “Battleship – A Batalha dos Mares”. Tão malhado quanto mau ator, o Gambit de “X-Men Origens: Wolverine” e Tim Riggins do seriado “Friday Night Lights” tem carisma zero e responde por uma boa parcela do fracasso das péssimas aventuras científicas de Andrew Stanton e Peter Berg. Só se deu razoavelmente bem em “Selvagens”, novo filme de Oliver Stone que não ficou no vermelho. É o novo Josh Lucas.

Michael Haneke em CannesUma vez que não há a ilustre presença de Lars von Trier, o Festival de Cannes automaticamente se livra de ocasiões polêmicas, ainda que se mostre notório pelas suas sessões em que há ovações ou vaias ensurdecedoras. A última edição teve “Moonrise Kingdom” como filme de abertura, escolha que apenas antecipou a manifestação em massa de produções americanas de olho na Palma de Ouro. Pois só “Indomável Sonhadora” levou algo para casa, a Câmera de Ouro, destinada a um filme em competição que conte com um diretor estreante – o júri desta categoria, aliás, foi presidido pelo brasileiro Cacá Diegues. Ainda inédito no Brasil, “Amor” consagrou novamente Michael Haneke, já premiado três anos atrás por “A Fita Branca”. Protagonistas de “Além das Montanhas” (que será lançado por aqui ainda este mês) Cristina Flutur e Cosmina Stratan dividiram o prêmio de melhor atriz enquanto Mads Mikkelsen foi laureado como melhor ator por “A Caça”, de Thomas Vinterberg. Nas demais categorias, Matteo Garrone levou o Grand Prix por “Reality”, Ken Loach o Prêmio do Júri por “A Parte dos Anjos”, Cristian Mungiu pelo roteiro de “Além das Montanhas” e Carlos Reygadas pela direção de “Post Tenebras Lux”.

Peter Jackson, diretor de O Hobbit - Uma Jornada Inesperada

48 QUADROS POR SEGUNDO: NOVA TECNOLOGIA NO CINEMA

Se as gerações anteriores demoravam para experimentarem novas tecnologias no cinema, agora somos submetidos a novas artimanhas que buscam proporcionar um entretenimento mais realista possível. Além da volta com força total do 3D, atualmente contamos com salas de cinema com telas mais amplas e equipamentos de som mais potentes. Sem dizer os benefícios de se ver um filme em casa com a popularização do Blu-ray. Neste ano, uma nova tecnologia foi criada. Trata-se do HFR, ou High Frame Rate, aplicada em “O Hobbit – Uma Viagem Inesperada” e que representa a passagem de 48 quadros (ou fotogramas) por segundo – os filmes que assistimos contém 24 quadros por segundo. O resultado é um trabalho visual mais realista, capaz de nos fazer encarar como crível um universo de fantasia. Mesmo que ainda não tenhamos postado uma resenha para “O Hobbit – Uma Viagem Inesperada”, já assistimos ao filme e recomendamos que seja visto no formato.

Chico Anysio como Professor Raimundo

PERDAS SENTIDAS

Nem todas as retrospectivas são feitas de fatos positivos que aconteceram ao longo de um ano. Em 2012, houve perdas sentidas não apenas no cinema, mas também na televisão e na música. Donas de vozes poderosíssimas, Whitney Houston, Etta James e Donna Summer deixaram como legado canções que permanecem emocionantes e únicas. Não foi um ano fácil para os brasileiros, que perderam dois ícones da televisão. Mesmo diagnosticada com câncer em 2010, Hebe Camargo se mostrou um exemplo de vida ao encarar a adversidade com garra e seu inesquecível bom humor. E falando em humor, o Brasil ficou mais triste dia 23 de março, data que partiu o grande Chico Anysio, sem dúvida o maior comediante que já tivemos. Deixarão saudades também as atrizes Regina Dourado, dona de papéis marcantes em novelas como “Roque Santeiro”, “Tropicaliente” e “Renascer”, e Marly Bueno. Em Hollywood, os veteranos Celeste Holm, Ernest Borgnine e Ben Gazzara tiveram de dar adeus, assim como o diretor Tony Scott (que deixa como obra mais marcante o terror “Fome de Viver”) e Michael Clarke Duncan, grandalhão que emocionou a todos em “À Espera de Um Milagre”, filme para o qual concorreu ao Oscar de melhor ator coadjuvante. Por fim, é preciso também mencionar Sylvia Kristel, de “Emmanuelle”. Ao viver a personagem-título, Kristel brincou com a imaginação de muitos espectadores. Inclusive deste que voz fala.

Os Vingadores [Bilheteria]

FENÔMENOS DE 2012

Antes um feito alcançado apenas por “Titanic”, atingir um bilhão de dólares em bilheterias mundiais não anda sendo uma grande novidade, apesar da alegria dos distribuidores. Em 2012, três títulos ultrapassaram a marca: “Os Vingadores”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” e “007 – Operação Skyfall”. Aqui no Brasil, temos uma outra marca, só que muito mais modesta: um milhão de espectadores. Por aqui, tivemos quatro sucessos estrondosos: “E aí, Comeu?” (2,5 milhões de ingressos vendidos), “Até que a Sorte nos Separe” (2,2 milhões), “Os Penetras” (1,6 milhões) e “Gonzaga – De Pai Pra Filho” (1,5 milhões). Lançado no último final de semana, “De Pernas Pro Ar 2” já foi visto por mais de 600 mil espectadores.

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4 Respostas para “Retrospectiva 2012

  1. Excelente retrospectiva, Alex. Acho que 2012 foi um ano atípico para o cinema. Tivemos poucos destaques. A temporada do Oscar deve mudar um pouco esse panorama, mas a verdade é que os grandes destaques de 2012 foram filmes originalmente lançados em 2011.

    Acho que você foi certeiro em muitos pontos de seus comentários, mas, especialmente, no que diz respeito ao Taylor Kitsch. Ele foi a grande aposta hollywoodiana no ano que passou, mas ele não vingou. Porém, não podemos culpá-lo, exclusivamente, pelo fracasso dos filmes que ele estreou. “John Carter”, por exemplo, é uma boa aventura. Não entendo mesmo porque esse filme fracassou tanto nas bilheterias.

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