Diretor: Woody Allen | Filmografia Comentada | Parte III

Penélope Cruz em “Para Roma, Com Amor”.

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Para finalizar o nosso especial sobre o diretor Woody Allen, comentamos todos os 46 filmes que ele dirigiu ao longo de sua extensa carreira, que vai desde “O que Há, Tigresa?” até o recente “Para Roma, Com Amor“. O trabalho foi árduo, mas o processo de resgatar da memória momentos de cada uma de suas obras só faz confirmar a genialidade desse realizador que é um dos mais especiais que o cinema tem. Para servir de complemento a esta série de postagens, em breve divulgarei os meus dez filmes favoritos de Woody Allen. Sem mais delongas, vamos prosseguir.

Para Roma, Com Amor (To Rome, With Love, 2012)
Ainda em cartaz, esta coletânea de contos passados em Roma parece ter desagradado os espectadores que ficaram maravilhados com “Meia-noite em Paris”, mas isto não invalida o resultado, que é ótimo. A história protagonizada por Jesse Eisenberg é insossa, mas as outras três, especialmente a protagonizada pelo próprio Woody Allen (em sua primeira aparição em frente às câmeras após “Scoop – O Grande Furo”), rendem situações saborosas.

Meia-noite em Paris (Midnight in Paris, 2011)
A princípio, “Meia-noite em Paris” emula “Manhattan” (a sequência inicial flagra diversos pontos da cidade), mas logo embarcamos em uma história fantasiosa em que Gil (Owen Wilson) é transportado magicamente para uma Paris em que bares eram habitados por figuras célebres como Cole Porter e Ernest Hemingway. Há saídas fáceis na narrativa, mas tudo é compensado pela bela mensagem de que, por melhor que seja o passado, viver o presente é o que vale.

Você vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos (You Will Meet A Tall Dark Stranger, 2010)
Apesar do grande elenco, o resultado dessa crônica sobre sorte e azar (tema recorrente na filmografia do diretor) é um tanto amargo. O roteiro ousa na resolução que é oferecida para algumas situações, mas o tom usado por Woody Allen para contá-las sempre mantém o espectador a certa distância. Helena (Gemma Jones), que virou supersticiosa após uma consulta com uma taróloga, é o pivô da história que também persegue o seu agora ex-marido Alfie (Anthony Hopkins), um homem de terceira idade que procura curtir a vida, e a sua filha Sally (Naomi Watts), que tem um casamento nada excitante com Roy (Josh Brolin), sujeito que passa a contemplar diariamente a sua vizinha Dia (Freida Pinto) pela janela.

Larry David em “Tudo Pode Dar Certo”.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009)
Responsável pelos seriados “Seinfield” e “Segura a Onda” (“Curb Your Enthusiasm”), o impagável Larry David poderia muito bem ser confundido como um irmão de Woody Allen. Judeus neuróticos e gênios na arte de fazer humor, a parceria só não se mostra infalível porque “Tudo Pode Dar Certo” começa excelente e termina apenas ok.

Vicky Cristina Barcelona (Vicky Cristina Barcelona, 2008)
Recebido com grande euforia em seu lançamento, “Vicky Cristina Barcelona” é bom, mas sente-se que Woody Allen não ousou o bastante no quadrado amoroso que se desenha entre Vicky (Rebecca Hall, no primeiro grande papel de sua carreira), Cristina (Scarlett Johansson), Juan Antonio (Javier Bardem) e Maria Elena (Penélope Cruz). Sem dizer que Patricia Clarkson faz uma personagem para lá de dispensável. De memorável mesmo, só a presença da espanhola Penélope Cruz (que ganhou o Oscar pelo papel) e a cidade de Barcelona belamente fotografada por Javier Aguirresarobe (“Os Outros”).

O Sonho de Cassandra (Cassandra’s Dream, 2007)
Após o surpreendente sucesso de “Match Point”, Woody Allen se viu mais livre para contar histórias densas. O primeiro e segundo ato de “O Sonho de Cassandra” indicam que o realizador nos presenteará com mais uma obra-prima. As expectativas vão por água abaixo quando chegamos ao terceiro ato, conduzido sem nenhuma sutileza e com uma conclusão desastrosa em todos os sentidos. Promessa de um grande filme que não se concretizou.

Woody Allen e Scarlett Johansson em “Scoop – O Grande Furo”

Scoop – O Grande Furo (Scoop, 2006)
“Scoop – O Grande Furo” foi recebido como um banho de água fria pela mesma crítica que celebrou o vigor renovado de Woody Allen em “Match Point”. Foi apedrejado sem merecer, pois “Scoop – O Grande Furo” é tão fofo quanto Scarlett Johansson, linda como nunca na pele de uma jornalista ambiciosa e com jeitão nerd que recebe um furo jornalístico de um fantasma (Ian McShane): a identidade do Assassino do Tarô, que aterroriza as ruas de Londres. A química entre a jovem atriz e Woody Allen (que interpreta um mágico que a auxiliará na missão de desmascarar o Assassino do Tarô) é perfeita e o filme é daqueles que a gente implora para não acabar.

Match Point (Match Point, 2005)
Com os seus filmes amargando péssimos resultados de bilheteria, Woody Allen se viu com poucas opções de investidores para dar forma aos seus próximos filmes. Acabou indo pela primeira vez a Londres e por lá se viu com uma liberdade artística que jamais havia experimentado tão plenamente. O resultado é “Match Point”, um suspense perfeito e que nos faz refletir sobre as pegadinhas que a vida nos prega – algumas acabam servindo para o nosso próprio benefício.

Melinda e Melinda (Melinda and Melinda, 2004)
Radha Mitchell está intensa nesta “dramédia” em que encara duas Melindas: uma que é protagonista do lado trágico da vida e outra que é a protagonista do lado cômico da vida. As duas possibilidades são expostas por um grupo de intelectuais em um restaurante e o espectador testemunhará os percalços que atingirão as duas Melindas. Pena que ao invés de evidenciar os extremos presentes na existência do ser humano como foi visto em “Crimes e Pecados” o filme opte por misturá-los, provocando uma incômoda indecisão ao definir o que é triste e o que é engraçado.

Jimmy Fallon e Christina Ricci em “Igual a Tudo na Vida”.

Igual a Tudo na Vida (Anything Else, 2003)
Quarto e último filme rodado com dinheiro da Dreamworks, “Igual a Tudo na Vida” é o pior trabalho da carreira de Woody Allen. Insuportavelmente longo (só perde para “Match Point” e “Para Roma, Com Amor” em termos de duração), a história é centrada em Jerry (Jason Biggs) sujeito com vida estagnada e com sentimentos confusos quanto a Amanda, a garota infiel com quem namora. Protagonista da franquia “American Pie”, Jason Biggs faz um Jerry que não causa qualquer empatia e suas raras interações com a plateia são desastrosas. O que mais incomoda, entretanto, é a sensação de tempo perdido em acompanhar uma história que, resumidamente, parece terminar no ponto em que começou. Só não é pior porque o próprio Woody Allen dá às caras como David Dobel, senhor que orienta Jerry sobre as suas decisões privadas e profissionais.

Dirigindo no Escuro (Hollywood Ending, 2002)
Criativa e curiosa comédia em que Woody Allen faz Val, um cineasta em decadência que tem a grande oportunidade de sua carreira ao ser indicado pela sua ex-esposa Ellie (Téa Leoni, muito bem) a dirigir uma grande produção de época. Repentinamente, Val perde totalmente a visão no início das filmagens. No entanto, para não decepcionar Ellie, ele decide dirigir o filme literalmente no escuro. As divertidas dificuldades de comunicação vistas com o diretor de fotografia são inspiradas nas interações de Woody Allen com Zhao Fei, chinês que fotografou “Poucas e Boas”, “Trapaceiros” e “O Escorpião de Jade”. A resolução continua sendo o grande problema: há uma indecisão em apontar se a cegueira crônica de Val é culpa do seu nervosismo ao dirigir uma grande produção, dos fracassados relacionamentos amorosos ou dos assuntos pendentes com o filho roqueiro.

Sons de Uma Cidade que Eu Amo (Sounds from a Town I Love, 2001)
Segunda e última investida de Woody Allen em um filme em formato de curta-metragem (a primeira vez se deu com o não visto “Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story”), “Sons de Uma Cidade que Eu Amo” é uma pequena homenagem a Nova York de aproximadamente três minutos em que o cineasta flagra diversos anônimos neuróticos falando ao celular pelas ruas da cidade. A melhor conversa pelo aparelho móvel é aquela em que uma mulher prevê o futuro fracassado da filha de apenas três anos apenas por ela não ter ingressado a pré-escola que julgava a mais apropriada.

Charlize Theron em “O Escorpião de Jade”.

O Escorpião de Jade (The Curse of the Jade Scorpion, 2001)
Filme mais caro da carreira de Woody Allen, “O Escorpião de Jade” é uma espécie de paródia aos filmes noir dos anos 1940. Há aqui a reunião de vários dos diálogos mais brilhantes já escritos por Allen. Os flertes entre o seu detetive com a suspeita interpretada por Charlize Theron (espetacular) e as farpas com a colega de trabalho feita por Helen Hunt são geniais. Infelizmente, a história, que envolve roubo de joias e hipnose, ganha uma resolução lastimável. De qualquer forma, Woody Allen exagera ao apontar este como o pior filme de sua carreira.

Trapaceiros (Small Time Crooks, 2000)
Primeiro filme de Woody Allen para a Dreamworks, “Trapaceiros” é uma de suas comédias mais inofensivas, daquelas que não se esforçam para provocar uma forte impressão. Tracey Ullman e Elaine May são as melhores coisas no filme – elas fazem, respectivamente, a esposa e o interesse romântico de Ray, papel interpretado por Woody Allen. A mudança de tom na história, que surge de uma hora para outra, prejudica o resultado: antes um filme de roubo, “Trapaceiros” passa a satirizar a alta sociedade a partir do segundo ato.

Poucas e Boas (Sweet and Lowdown, 1999)
Filme pouco visto de Woody Allen em que Sean Penn incorpora Emmet Ray, um guitarrista de jazz fictício em plena década de 1930 que idolatra Django Reinhardt, encara gângsteres e se apaixona por Hattie (Samantha Morton), uma garota muda. Com admirável reconstituição de época, o cineasta faz uma espécie de homenagem tanto a músicos de trajetória cigana como Reinhardt e Stéphane Grappelli como para “A Estrada”, dirigido por Federico Fellini e um dos seus filmes preferidos. O problema está na inserção de depoimentos de Ben Duncan, Nat Hentoff, Douglas McGrath e do próprio Allen como “estudiosos” da vida e carreira de Emmet Ray.

Judy Davis e Bebe Neuwirth em “Celebridades”.

Celebridades (Celebrity, 1998)
Em sua última colaboração com o diretor de fotografia Sven Nykvist, Woody Allen faz um retrato amargo do mundo das celebridades, com um preto e branco que ressalta a dissimulação dos indivíduos que o habitam. Entretanto, Woody Allen parece perdido em sua própria história. É incapaz de determinar um protagonista e as discussões que levanta sobre a artificialidade que domina aqueles que buscam a fama são esquecidas a todo o momento. A história é sobre Lee Simon (Kenneth Branagh) em contato com várias pessoas envolvidas com a indústria cinematográfica para que mostrem interesse em levar o seu roteiro para as telas, mas também pode ser sobre a sua ex-mulher (Judy Davis) e os percursos que ela atravessa para superar o rompimento.

Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997)
Com elenco de apoio perfeito (Robin Williams, Demi Moore, Kirstie Alley, Amy Irving, entre outros), “Desconstruindo Harry” mostra um roteirista incorporado por Woody Allen com bloqueio criativo que divide o seu tempo discutindo com suas ex-mulheres e contratando prostitutas. Em pequena viagem para receber um prêmio especial, acompanhamos trechos de suas histórias. Há até instantes em que ele passa a interagir com os próprios personagens que criou. A originalidade do roteiro (indicado ao Oscar) é comprometida pela montagem desordenada, que privilegia em demasia os cortes secos. A excelente Hazelle Goodman é a primeira atriz negra a ter um papel de destaque em um filme do diretor.

Todos Dizem Eu Te Amo (Everyone Says I Love You, 1996)
Em uma realidade em que intérpretes precisam de um vozeirão para estrelar um musical, Woody Allen inova ao fazer o extremo oposto: a exigência feita ao cast de “Todos Dizem Eu Te Amo” foi que eles desempenhassem suas cenas musicais como se estivessem cantando debaixo de um chuveiro. O incômodo está na falta de domínio do realizador ao lidar com este gênero tão complicado. O número musical que envolve aparições fantasmagóricas é feio de se ver. A trama entre os personagens de Woody Allen e Julia Roberts é a versão cômica da ideia trabalhada em “A Outra”.

Woody Allen e Mira Sorvino em “Poderosa Afrodite”.

Poderosa Afrodite (Mighty Aphrodite, 1995)
Woody Allen recebeu uma indicação ao Oscar pelo roteiro desse filme que foca as desventuras de Lenny, um sujeito que decide desvendar quem é a mãe do seu filho adotivo, um garotinho com uma astúcia fora do comum. A busca o leva à Linda Ash (Mira Sorvino), uma atriz de filmes pornográficos que atualmente ganha a vida como prostituta. O problema é que Lenny ignora os constantes alertas de um coro grego, que não acha que ele está fazendo a coisa certa. “Eu vejo desastre. Eu vejo catástrofe. Pior, eu vejo advogados!”, alerta o coro. Em grande performance vencedora do Oscar, Mira Sorvino torna Linda Ash uma figura ainda mais irresistível ao lhe dar um sotaque carregado do Brooklyn e uma sensualidade que jamais soa vulgar.

Quase Um Sequestro (Don’t Drink the Water, 1994)
Originalmente escrita como uma peça (ganhou os palcos da Broadway em 1966), “Quase Um Sequestro” recebeu uma adaptação cinematográfica homônima em 1969. Segundo Woody Allen, o filme de Howard Morris é um dos piores que ele já viu em toda a sua vida. Porém, nada de válido é visto ou acrescentado na versão de 1994, adaptada pelo próprio Woody Allen em formato de telefilme. Após um incidente em plena Guerra Fria, a família Hollander busca refugio na Embaixada Americana para não serem presos. Apoiado por piadas redundantes (os fracassados truques de mágica feitos pelo padre interpretado por Dom DeLuise são repetidos até dizer chega) e performances apagadas, “Quase Um Sequestro” é sem dúvida um dos piores filmes de Woody Allen.

Tiros na Broadway (Bullets Over Broadway, 1994)
Embora tenha trabalhado com John Cusack em “Neblina e Sombras”, é difícil compreender o motivo que levou Woody Allen em escalá-lo como protagonista de “Tiros na Broadway”. Forçado ao viver um alter ego do diretor, Cusack ainda é totalmente ofuscado pelo grande elenco de apoio, que conta com nomes como Dianne Wiest, Jennifer Tilly e Chazz Palminteri, todos devidamente indicados ao Oscar (Dianne Wiest venceu a estatueta de melhor atriz coadjuvante, sua segunda em um filme de Woody Allen). Fora este pequeno grande problema, “Tiros na Broadway” diverte ao mostrar um malfeitor (Palminteri) cujos pitacos influenciam positivamente o texto de um dramaturgo (Cusack).

Anjelica Huston e Woody Allen em “Um Misterioso Assassinato em Manhattan”.

Um Misterioso Assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery, 1993)
Embora tenha desejado inserir uma trama de mistério em “Hannah e Suas Irmãs”, a ideia desenvolvida em “Um Misterioso Assassinato em Manhattan” perseguia Woody Allen desde “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. A espera valeu muito a pena, pois o resultado é um filme que mistura de forma brilhante elementos de humor e suspense. Curiosamente, Diane Keaton substituiu Mia Farrow de última hora (ela rompeu o relacionamento amoroso e profissional com Woody Allen em 1992 após encontrar evidências do envolvimento dele com Soon-Yi Previn, sua filha adotiva). O maior tour de force em toda a carreira de Woody Allen está aqui, em um clímax passado em um salão com espelhos que refletem trechos de “A Dama de Shanghai”, de Orson Welles.

Maridos e Esposas (Husbands and Wives, 1992)
Experimento radical, Woody Allen acompanha o cotidiano de dois casais (Allen e Mia Farrow, Sydney Pollack e Judy Davis) usando uma câmera frenética, com cortes secos e nenhuma preocupação estética. O que se vê é assustador, mas reflete muito bem todos os baixos dos personagens, críveis com a exposição de todas as suas imperfeições.

Neblina e Sombras (Shadows and Fog, 1991)
Habituado em rodar em locações, Woody Allen investe uma verdadeira grana na criação dos cenários cobertos por névoa de “Neblina e Sombras”, entrada mal sucedida no universo noir. A sensação é que há dois filmes aqui. O primeiro tem Mia Farrow como Irmy, esposa de um artista circense (John Malkovich) que pula a cerca com Marie (ninguém menos que a Madonna). Já o segundo tem Kleinman (Woody Allen), um atrapalhado detetive. O elo está no assassino em série que cruza os caminhos de Irmy e Kleinman. A melhor coisa aqui é a fotografia assinada pelo italiano Carlo Di Palma, oferecendo uma atmosfera densa que o texto infelizmente não corresponde à altura. Reparem nas participações de Jodie Foster, Kathy Bates e Lily Tomlin como prostitutas, bem como a de Donald Pleasence interpretando um médico legista.

Mia Farrow em “Simplesmente Alice”

Simplesmente Alice (Alice, 1990)
A missão de Woody Allen de rodar uma média de um filme por ano só alegra os seus fãs. Porém, filmes menores, quase insípidos acabam sendo uma inevitável consequência. “Simplesmente Alice” se encaixa perfeitamente nesta categoria e tem como único atrativo as passagens em que a personagem-título encarnada por Mia Farrow consome um chá que a torna invisível. Não à toa, é um dos filmes menos comentados quando se discute a carreira de Woody Allen.

Crimes e Pecados (Crimes and Misdemeanors, 1989)
Embora tenha assumido posteriormente que poderia ter descartado toda a história que envolve seu personagem, a melhor sacada de Woody Allen em “Crimes e Pecados” foi desenvolver duas tramas que apresentam uma conexão sutil apenas no último ato. Como esperado, Woody Allen é o protagonista da parte cômica como Cliff, diretor de documentários que recebe financiamento do seu cunhado (Alan Alda) para o seu próximo projeto, ainda que o deteste. Na outra história, esta bem dramática, Martin Landau faz Judah, homem casado que mantém um relacionamento com Dolores (Anjelica Huston), que o ameaça de tornar pública a sua pulada de cerca caso não desista de tudo para ficar com ela.

Contos de Nova York – Édipo Arrastado (New York Stories, 1989)
Em “Contos de Nova York”, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Woody Allen rodaram histórias com aproximadamente quarenta minutos para formar um longa-metragem. Em cada um, vemos os elementos narrativos que tornaram os três cineastas tão cultuados, mas quem se saiu melhor foi mesmo Woody Allen com o seu “Édipo Arrastado”, de longe o melhor segmento de “Contos de Nova York”. Ele vive Sheldon, advogado que namora com Lisa (Mia Farrow) atormentado pela própria mãe (Mae Questel), uma velha que o trata como criança e que desaprova totalmente o relacionamento. As coisas pioram quando ela o perturba no céu nova-iorquino após desaparecer em um truque de mágica. Só assistindo para acreditar – e se divertir, claro.

Gena Rowlands em “A Outra”.

A Outra (Another Woman, 1988)
Um filme que tinha tudo para ser notável, mas que termina sem ao menos nos emocionar. Os inúmeros acertos incluem a escalação da extraordinária Gena Rowlands como protagonista, o casamento perfeito das cenas com a música de Erik Satie e a fotografia de Sven Nykvist que dá ao filme um ar bergmaniano. A história começa promissora, com Marion (Gena Rowlands) ouvindo secretamente as confissões de Hope (Mia Farrow) para o seu terapeuta em sessões que acontecem no apartamento vizinho. Há tensão no prometido encontro entre as duas personagens, mas os inúmeros flashbacks, que ilustram algumas escolhas tomadas por Marion na sua juventude que dizem muito sobre quem ela se tornou, são encaixados de forma inadequada à narrativa.

Setembro (September, 1987)
Curiosidade bizarra: “Setembro” foi filmado duas vezes, contando com um elenco distinto em ambas as versões. A intenção de Woody Allen aqui era fazer um filme passado em um único cenário e com um elenco e equipe minúsculos. A primeira versão o desagradou e fazer ‘Setembro” outra vez lhe custou a saída de atores como Maureen O’Sullivan, Charles Durning e Sam Shepard (que já estava substituindo Christopher Walken) e o seu maior fracasso de bilheteria. Ainda assim, o resultado é bem acima da média e a sensação de teatro filmado é rapidamente esquecida graças a dedicação do elenco. E qualquer semelhança com a vida da atriz Lana Turner (Mia Farrow faz uma mulher traumatizada por ter sido responsabilizada pela morte de um mau elemento com quem sua mãe se relacionava) pode não ser mera coincidência.

A Era do Rádio (Radio Days, 1987)
Filme mais nostálgico de Woody Allen, “A Era do Rádio” retorna aos velhos tempos em que famílias se reuniam para ouvir canções e as principais notícias pelo rádio e o quanto o objeto influenciava a vida de cada membro. Com uma trilha-sonora deliciosa que inclui até mesmo Carmen Miranda, “A Era do Rádio” é também um dos melhores filmes do diretor em relação de equilíbrio entre personagens e suas histórias, cada um com o tempo apropriado em cena. Diane Keaton fecha o filme com chave de ouro fazendo uma participação especial em que canta “You’d Be So Nice to Come Home To”.

Mia Farrow, Barbara Hershey e Dianne Wiest em “Hannah e Suas Irmãs”.

Hannah e Suas Irmãs (Hannah And Her Sisters, 1986)
“Hannah e Suas Irmãs” é o filme mais bem-sucedido de Woody Allen dos anos 1980.  Rendeu a ele inúmeros prêmios, ótima bilheteria e fortaleceu o seu status de grande autor. Visto hoje, não se iguala aos seus maiores momentos. O filme se inicia em um Dia de Ação de Graças e foca a intimidade das irmãs Lee (Barbara Hershey), Holly (Dianne Wiest, que venceu o Oscar pelo papel) e Hannah (Mia Farrow). Hannah é casada com Elliot (Michael Caine, em desempenho superestimado premiado com um Oscar), que por sua vez mantém um relacionamento com Lee, que vive com Frederick (Max von Sydow), um artista recluso – Holly é a irmã loser, uma viciada em cocaína. Alívio cômico do filme, Woody Allen rouba a cena como um sujeito em dúvida quanto a sua própria religiosidade.

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985)
Woody Allen faz uma singela homenagem ao cinema com “A Rosa Púrpura do Cairo”. No filme, Mia Farrow vive Cecilia, uma triste garçonete que vive em uma Nova Jersey tomada pela Grande Depressão Americana com o marido Monk (Danny Aiello), sujeito grosseiro viciado em jogos de azar. A sala de cinema é o refúgio de Cecilia e Tom Baxter (Jeff Daniels), herói do filme “A Rosa Púrpura do Cairo”, passa a lhe fazer companhia ao sair magicamente da tela. O problema é que o filme não pode continuar sem seu protagonista e o ator que incorpora Tom Baxter, Gil Shepherd (também Jeff Daniels) é convocado para persuadir Cecilia e fazer o seu personagem voltar para a tela. Obra que nos marca pela sua melancolia.

Broadway Danny Rose (Broadway Danny Rose, 1984)
Se Martin Scorsese fizesse uma comédia sobre o universo de gângsteres do qual lhe é tão familiar, o resultado estaria próximo desse “Broadway Danny Rose”. Mas é uma obra na qual há bastante influência direta à vida de Woody Allen, uma vez que Danny Rose, agente que incorpora aqui, foi inspirado em Charles Joffe e Jack Rollins, os sujeitos que gerenciavam a carreira de Woody Allen quando ele começou a fazer stand up comedy. O destaque aqui fica por conta de Mia Farrow, que como Tina (amante de um gângster com quem Danny Rose acaba se envolvendo) faz a personagem mais diferente entre as treze colaborações com Woody Allen.

Woody Allen em “Zelig”.

Zelig (Zelig, 1983)
Realizado simultaneamente com “Sonhos Eróticos Numa Noite de Verão”, “Zelig” apresenta um Woody Allen experimental em sua melhor forma. Ele retoma o estilo mockumentary de “Um Assaltante Bem Trapalhão” para contar a curiosa história de Leonard Zelig, um autêntico homem-camaleão: ele tem a habilidade de incorporar qualquer pessoa que lhe seja conveniente. O ápice é atingido quando Zelig é visto próximo a Hitler em plena Segunda Guerra Mundial (o filme utiliza uma série de arquivos de época). Filme mais curto da filmografia de Woody Allen, recebeu indicações ao Oscar nas categorias de melhor fotografia e figurino.

Sonhos Eróticos Numa Noite de Verão (A Midsummer Night’s Sex Comedy, 1982)
Após a morna recepção do autoral “Memórias”, Woody Allen se inspira em outro filme de Ingmar Bergman (“Sorrisos de Uma Noite de Amor”) para fazer uma comédia leve, realizada com um elenco pequeno e tendo uma bela casa no campo como cenário. Escrito em apenas duas semanas, a comédia é uma das mais esquecíveis em toda a carreira do cineasta, sobressaindo-se apenas pelo tom fantástico que predomina a narrativa. Indicada ao Framboesa de Ouro pelo papel, Mia Farrow inicia uma parceria com Woody Allen que se estenderia consecutivamente por mais doze filmes.

Memórias (Stardust Memories, 1980)
Woody Allen faz o seu “8½” de Fellini nesta história de um célebre cineasta em viagem para um festival para receber um prêmio especial pela sua carreira, rapidamente convertida em uma jornada emocional que o fará reviver lembranças e amores de sua vida. Fotografado em esplêndido preto e branco por Gordon Willis, “Memórias” causa estranhamento para quem está acostumado a acompanhar as comédias do cineasta e carece da intensidade dramática vista em “Interiores”. Há pontas de Sharon Stone e Louise Lasser, contribuição em um período em que já havia se divorciado de Woody Allen.

Meryl Streep e Woody Allen em “Manhattan”.

Manhattan (Manhattan, 1979)
Comédia romântica que quase reprisou o sucesso de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Manhattan” faz a cidade-título ser tão protagonista da história quanto Isaac (Woody Allen). A fotografia em preto e branco de Gordon Willis só torna ainda mais deslumbrante os cenários em que transitam os personagens. A história se apoia no namoro de Isaac com Mary (Diane Keaton) e também nas farpas que ele ainda troca com Jill (Meryl Streep), que o largou após se assumir lésbica e que dedica o seu tempo escrevendo um livro em que irá relatar o seu desastroso casamento com ele. Porém, o que realmente vale o filme é a delicadeza com que acontece o envolvimento de Isaac, um homem de 42 anos, com Tracy (Mariel Hemingway), uma estudante com apenas 17 anos.

Interiores (Interiors, 1978)
Pela primeira vez em sua carreira, Woody Allen faz uma homenagem a Ingmar Bergman, um dos seus diretores favoritos. Em “Interiores”, Renata (Diane Keaton), Joey (Mary Beth Hurt, em grande desempenho) e Flyn (Kristin Griffith) são irmãs cheias de atritos que são obrigadas a se reaproximarem para auxiliarem a mãe Eve (Geraldine Page), que entra em um estado de depressão profunda com o repentino pedido de divórcio do marido (E.G. Marshall). Esplêndida radiografia de uma família despedaçada e que marca o espectador por apresentar uma visão menos otimista sobre a vida.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977)
Comédia romântica com fórmula infalível e inimitável, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” foi fundamental para consolidar Woody Allen como um artista sério e que iria muito além da sátira e humor físico presentes em seus trabalhos prévios. Trinta e cinco anos depois, o filme permanece moderno no retrato de realiza de um casal com todos os seus altos e baixos. Para se ver inúmeras vezes.

Diane Keaton e Woody Allen em “A Última Noite de Boris Grushenko”.

A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death, 1975)
Primeiro grande filme de Woody Allen, “A Última Noite de Bóris Grushenko” prova seu avanço como diretor e roteirista. A história é bem amarrada e o trabalho técnico é impecável. Boris Grushenko (Woody Allen) é um covarde forçado a se alistar para o exército para salvar a Rússia das invasões francesas. Diane Keaton vive Sonja, mulher que não corresponde às investidas amorosas de Boris.

O Dorminhoco (Sleeper, 1973)
Com um ponto de partida promissor, Woody Allen mostra o deslocamento de um sujeito congelado em 1973 e reanimado duzentos anos depois. O cineasta faz uma sátira ácida ao artificialismo da modernidade e a um governo opressor, mas o seu filme se sustenta apenas por gags visuais, como aquela em que seu personagem se disfarça como robô ou quando se depara com frutas e legumes em tamanhos gigantescos. Primeira parceria no cinema com Diane Keaton.

Tudo o que Você Queria Saber Sobre Sexo e Tinha Medo de Perguntar (Every Thing You Always Wanted to Know About Sex * But Where Afraid to Ask, 1972)
Por meio de sete segmentos (“Os afrodisíacos funcionam?”, “O que é sodomia?”, “Por que algumas mulheres têm problemas de orgasmo?”, “Os travestis são homossexuais?”, “O que são perversões sexuais?”, “Os experimentos e as pesquisas sobre sexo feitas pelos cientistas médicos são válidas?” e “O que acontece durante a ejaculação?”) Woody Allen prova que qualquer filme neste formato terá momentos que irão se sobressair em comparação com outros. A boa notícia é que o resultado de cada um deles é no mínimo bom. Destaque especial para “Por que algumas mulheres têm problemas de orgasmo?”, em que Woody Allen apresenta o seu melhor momento como ator em uma história que, no fundo, homenageia (ou satiriza?) o cinema italiano.

Homens da Crise – A História de Harvey Wallinger (Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story, 1971)
Único filme da filmografia de Woody Allen que não assistimos. Também, não há outra: mockumentary produzido para a tevê que satiriza a administração de Nixon, “Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story” ia ser exibido em fevereiro de 1972, mas acabou sendo banido pela emissora após a pressão exercida pelo próprio Nixon. Há quem diga que a obra pode ser vista na Paley Center for Media situada em Nova York.

Sylvester Stallone, Woody Allen e Anthony Caso em “Bananas”.

Bananas (Bananas, 1971)
Melhor que “Um Assaltante Bem Trapalhão”, “Bananas” nos mostra as desventuras do ingênuo Fielding em conquistar o coração de uma ativista política (papel de Louise Lasser). Para provocar uma forte impressão, ele viaja para San Marcos e se une aos rebeldes, o que consequentemente o tornará um líder político. O humor físico de Woody Allen é a grande estrela da comédia, que traz uma ponta-relâmpago de ninguém menos que Sylvester Stallone. Em tempo: questionado sobre o título da comédia, Woody Allen respondeu que foi batizado assim porque não há bananas no filme. Gênio.

Um Assaltante Bem Trapalhão (Take the Money and Run, 1969)
Verdadeiro loser na infância, Virgil Starkwell cresce com o desejo de se tornar um ladrão. Todas as tentativas de roubo resultam frustradas pelo despreparo do sujeito, que sempre acaba na cadeia. A melhor piada é a que envolve uma pistola feita de sabão, guardas feitos de reféns e chuva. A fita se sobressai pelo até então pioneiro estilo mockumentary, que mais tarde influenciaria cineastas como Rob Reiner e Christopher Guest.

O Que Há, Tigresa? (What’s Up, Tiger Lily?, 1966)
Mais uma brincadeira do que propriamente cinema, Woody Allen tem “O Que Há, Tigresa?” como o seu primeiro filme em que é creditado como diretor. Uma vez com um filme japonês obscuro em mãos, Woody Allen modifica toda a narrativa ao inserir novos diálogos no processo de redublagem. Antes um filme de espionagem com um agente incumbido de encontrar um microfilme secreto, agora a história se trata sobre a busca por uma receita de salada de ovos (!). Com momentos inegavelmente engraçados, Woody Allen se perde no processo da livre adaptação.

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4 Respostas para “Diretor: Woody Allen | Filmografia Comentada | Parte III

  1. Pingback: Promoção “Woody Allen” | Cine Resenhas·

  2. Pingback: Piscou, Perdeu! | Cine Resenhas·

  3. Eu terminei de ler o “Conversas com Woody Allen” do Eric Lax essa semana e resolvi ver os filmes dele que eu antes não dava tanta bola, como Celebridades. É incrível como o nosso olhar muda quando a gente passa a saber os detalhes de produção, como foi o relacionamento com o diretor de fotografia, o montador, etc. Eu também detesto demais o “Igual a tudo na vida”, acho que foi o único dele que eu não considerei pelo menos razoável. E achei muito legal a sua série de textos.

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