Diretor: Woody Allen | Trabalho | Parte II

Goldie Hawn dança em “Todos Dizem Eu Te Amo”: cena com efeitos especiais e nenhum corte.

Para ler a Parte I, clique aqui.

Independente se for uma comédia, um drama, um romance ou até mesmo um suspense, um espectador que conhece uma boa parte da filmografia de Woody Allen sabe exatamente o que esperar de um filme seu ao comprar o ingresso. Isto não significa que este mesmo espectador não possa sair surpreendido com o que acabou de assistir. Agora, se você desconhece o trabalho deste que talvez seja o autor mais original ainda em atividade no cinema americano, nunca é tarde demais para correr atrás das suas obras. No entanto, os comentários acerca dos quarenta e seis filmes dirigidos por Woody Allen estarão presentes apenas na terceira e última parte do especial que preparamos, pois agora desvendaremos as razões que o tornam um roteirista e um diretor único.

Elementos do cinema de Woody Allen:

  •  Personagens neuróticos;
  •  Adultérios;
  •  Dramas bergmanianos;
  •  Alter ego;
  •  Cenário como personagem;
  • Universo sem um deus, a sorte é o que nos guia;
  • Conjugues com grande diferença de idade;
  • Histórias que não se valem de tendências atuais;
  • Uso de música clássica e jazz;
  • Diálogos/sacadas singulares;
  • Parcerias com membros de equipe e elenco que se repetem.

De “O Que Há, Tigresa?” até “O Dorminhoco”, Woody Allen ainda é um cineasta inexperiente. Os seus filmes deste período estavam mais preocupados em apresentarem gags visuais do que propriamente contar uma boa história. Isto se vê especialmente em “O Dorminhoco”, em que os engraçados elementos em cena que pertencem a um futuro ainda distante (precisamente, 2173, ano em que há frutas e vegetais gigantes e grandes cápsulas capazes de nos dar múltiplos orgasmos) ofuscam totalmente o interesse em acompanhar a jornada de Miles Monroe (o próprio Allen). Isto passa a mudar a partir de “A Última Noite de Boris Grushenko”. Ainda há muitas gags visuais (é especialmente hilária aquela que fecha o filme, em que Woody Allen dança alegremente com a morte ao som de uma música do russo Sergei Prokofiev), mas nos ficamos envolvidos com a história do ingênuo e atrapalhado soldado incumbido de defender a Rússia da invasão francesa. Sem dizer que “A Última Noite de Boris Grushenko” é tecnicamente impecável: Woody Allen contou com a colaboração do diretor de fotografia Ghislain Cloquet (“Tess – Uma Lição de Vida”) e do diretor de arte Willy Holt (“Paris Está em Chamas?”) para garantir opulência à fita.

Mia Farrow, Diane Keaton, Diane Wiest e Judy Davis: musas de Woody Allen.

Nesta fase inicial de sua carreira, é possível notar também a preferência de Woody Allen em trabalhar com profissionais repetidas vezes. Em “O Dorminhoco”, temos a primeira parceria de Woody Allen e Diane Keaton nas telas (eles voltariam a trabalhar juntos em “A Última Noite de Boris Grushenko”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Interiores”, “Manhattan”, “A Era do Rádio” e “Um Misterioso Assassinato em Manhattan”). O editor Ralph Rosenblum também é um nome muito importante para Woody Allen. Ele não apenas auxiliou Allen em “Um Assaltante Bem Trapalhão” (que pode ser considerado o seu primeiro filme, pois em “O Que Há, Tigresa?” a real preocupação se concentrava apenas em sua redublagem) como montou cinco de seus filmes (a parceria terminou em “Interiores”).

O trio que vem após “A Última Noite de Bóris Grushenko”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Interiores”, “Manhattan”, resume ainda melhor o artista consagrado que tanto adoramos hoje em dia. Em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, Woody Allen deu um novo sentido para as comédias românticas, criando um retrato crível de um relacionamento entre um homem e uma mulher um tanto neuróticos moldado por altos e baixos. Também não há como não ressaltar os diálogos, cheio de sacadas brilhantes. Como não se lembrar da anedota usada pelo personagem interpretado por Woody Allen para comparar o relacionamento com Annie (Diane Keaton)?

Paciente: Doutor, o meu irmão é louco. Ele acha que é uma galinha.
Psiquiatra: Por que você não o interna?
Paciente: Até internava, mas preciso dos ovos.

Mesmo que não considere um dos seus melhores trabalhos, “Interiores” é o melhor drama já dirigido por Woody Allen e que provocou na audiência da sua época o mesmo choque que “Match Point” provocou em nós. Nunca foi um segredo que Woody Allen sempre foi um grande admirador de Ingmar Bergman, mas somente nesta fita é que ele faz um verdadeiro tributo ao realizador sueco. Os principais elementos em “Interiores” que remetem ao cinema de Ingmar Bergman são as tomadas silenciosas, a ausência total de uma trilha-sonora, um foco delicado nas mulheres e uma atmosfera melancólica, alcançada através do trabalho do diretor de fotografia Gordon Willis, os figurinos assinados por Joel Schumacher (sim, o mesmo sujeito que duas décadas depois faria “Batman & Robin”) que vestem os personagens como se estivessem de luto e os ambientes em que não há nenhum calor humano assinados pela dupla Daniel Robert e Mel Bourne.

Jonathan Rhys Meyers em uma cena de “Match Point” que representa uma das marcas de Woody Allen: o crime mais dramático é aquele que o público não vê de forma explícita.

Para fechar o trio, finalmente temos “Manhattan”. Fotografado em belo preto e branco, a história traz outros elementos que se tornaram constantes nos textos de Woody Allen. Além de adultérios e relacionamentos entre indivíduos com idades bem diferentes (Woody Allen interpreta Isaac, sujeito divorciado com quarenta e dois anos que namora uma estudante de dezessete anos feita por Mariel Hemingway), “Manhattan” transforma a cidade-título em um verdadeiro protagonista. Assim como no recente “Meia-noite em Paris”, o diretor reserva uma introdução de aproximadamente quatro minutos para mostrar os mais belos pontos do lugar em que ele situará seus personagens.

Woody Allen aprendeu tudo que sabe na prática e se diz um diretor incorrigivelmente preguiçoso. Isto nunca foi motivo para ele não ser considerado um dos maiores cineastas da história do cinema, integrante de um grupo em que há nomes como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Alfred Hitchcock, Francis Ford Coppola e outros. Um olhar mais atento em seus filmes revelam um talento natural e que consegue elaborar ao menos uma grande cena para ficar na memória. Este resultado é alcançado por dois fatores fundamentais.

Melanie Griffith corre desesperadamente em “Celebridades”: fotografia assinada pelo sueco Sven Nykvist, braço direito de Ingmar Bergman.

O primeiro fator é o relacionamento de Woody Allen com o diretor de fotografia. Ciente de suas limitações, resta se apoiar naquele que o auxiliará em fazer com que o filme seja o mais fiel possível a sua imaginação, uma vez que ele acredita que o processo de escrever é muito mais enriquecedor do que o de dirigir. A atmosfera dos filmes de Woody Allen varia de acordo com o diretor de fotografia da vez. Percebam que a colaboração de Woody Allen com Sven Nykvist (o braço direito de Ingmar Bergman) renderam aquelas que são as obras que trazem um lado mais amargo da vida (“A Outra”, “Crimes e Pecados”, “Celebridades”) enquanto algumas colaborações com Carlo Di Palma resultaram em filmes mais iluminados, coloridos (“A Era do Rádio”, “Simplesmente Alice”, “Tiros na Broadway”, “Poderosa Afrodite”).

Woody Allen também detesta fazer muitas tomadas e usa planos-sequência sempre que soar positivo para a narrativa. Uma vez ou outra o uso se mostra enfadonho (a exemplo de “Igual a Tudo na Vida”, com interações que parecem jamais acabar), mas já rendeu cenas memoráveis: o instante em que Goldie Hawn começa a dançar com Woody Allen em “Todos Dizem Eu Te Amo” é uma tomada sem um corte. Há também certo experimentalismo em filmes como “Maridos e Esposas” e “Desconstruindo Harry”: a câmera na mão quase agressiva do primeiro e os cortes secos do segundo são reflexos do universo de seus personagens centrais.

ATUAÇÕES

Woody Allen como Jimmy Bond em “Cassino Royale”: mal sucedida paródia ao universo de James Bond.

Woody Allen deu as caras como intérprete ao menos em 2/3 dos filmes que dirigiu. Em todos, fez uma versão de si mesmo. Não importa se ele está incorporando um mágico (“Scoop – O Grande Furo”), um roteirista com bloqueio criativo (“Desconstruindo Harry”) ou um sujeito em dúvida com os próprios credos (“Hannah e Suas Irmãs”), sempre estaremos diante do homem que gagueja e gesticula sem parar e que parece estar à beira de um ataque de nervos. Trata-se de um padrão de interpretação que todos aprenderam a admirar, embora revele um ator limitadíssimo. Mas o que importa é ver Woody Allen interpretando Woody Allen. Ou vai dizer que há coisa melhor em “Para Roma, Com Amor” do que vê-lo em frente às câmeras após ficar afastado dessa posição desde “Scoop – O Grande Furo”?

De qualquer forma, Woody Allen está ciente dos seus limites como ator. Foi por isso que descartou a possibilidade de reservar para si algum papel em filmes como “Tiros na Broadway”, “Celebridades”, “Tudo Pode Dar Certo” e “Meia-noite em Paris”. Não que tenha mudado muita coisa: os protagonistas desses filmes, John Cusack, Kenneth Branagh, Larry David e Owen Wilson, são nada mais, nada menos do que alter egos de Woody Allen, repetindo em cena todas as suas famosas peculiaridades.

Woody Allen contracena com Judy Davis em “Para Roma, Com Amor”: versão de si mesmo.

Uma curiosidade é que Woody Allen gosta de brincar como ator e costuma dar uma resposta positiva sempre que surge um convite de outro diretor para interpretar algum pequeno ou grande papel. Embora considerada uma comédia ruim por unanimidade, sua participação em “Cassino Royale”, uma paródia de James Bond, é impagável. Woody Allen também já foi dirigido por Herbert Ross (“Sonhos de Um Sedutor”), Martin Ritt (“Testa-de-ferro Por Acaso”), Paul Mazursky (“Cenas de Um Shopping”), John Erman (no telefilme “Feitos Um Para o Outro”), Stanley Tucci (“Os Impostores”) e até mesmo Alfonso Arau (“Juntando os Pedaços”).

Atualmente, ele está de contrato assinado para protagonizar “Fading Gigolo”, filme em que contracenará com John Turturro, diretor e roteirista da produção. Em pré-produção, a comédia acompanhará dois amigos judeus que decidem reviver os tempos em que eram gigolôs com a intenção de descolar uma grana extra.

Obs: A nossa postagem sobre a vida e carreira de Woody Allen será dividida em três partes.

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2 Respostas para “Diretor: Woody Allen | Trabalho | Parte II

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