Diretor: Woody Allen | Perfil | Parte I

Quem é Woody Allen?

Dentro de um saco plástico há inúmeras folhas destacadas tanto de cadernos de bolso como de blocos para anotações com a logomarca de vários hotéis de luxo situados em algumas cidades na Itália, como o Hotel Gritti Palace (Veneza), a Villa d’Este (Cernobbio) e o Hotel Hassler (Roma). Mesmo que a caligrafia seja ilegível, é possível compreender que há nestas folhas notas que descrevem brevemente algumas ideias para desenvolvimento de histórias e personagens – neste caso em particular, os elementos que formariam o roteiro de “Crimes e Pecados”, para o qual Woody Allen seria indicado ao Oscar, Bafta e o Writers Guild of America.

É exatamente assim que nascem as histórias escritas por Woody Allen, nascido Allan Stewart Konigsberg no dia 1 de dezembro de 1935: em pequenos pedaços de papel, que posteriormente ganham formas em uma velha máquina de escrever. O mistério é desvendar a origem do dom para a escrita deste nova-iorquino que passou a infância no Brooklyn tocando sua clarineta e brincando de mágico. Talvez porque desde cedo, aos quinze anos, investiu em sua veia cômica escrevendo piadas semanalmente para jornais locais, todas inspiradas na vivência com sua família judia e com os colegas e professores da escola, embora em muitos momentos tenha matado aula para assistir filmes atualmente considerados grandes clássicos do cinema americano e europeu.


O Começo

Woody Allen em “O Que Há, Tigresa?”: primeiro longa-metragem creditado como diretor.

 A entrada de Woody Allen no show business se deu com o enorme sucesso que fez com stand up comedy, lhe abrindo portas para escrever roteiros de filmes e séries televisivas entre 1950 a 1963. Os trabalhos que Woody Allen realizou neste período podem não ter sobrevivido ao tempo, mas foram suficientemente importantes para lhe garantir segurança para escrever “O Que É Que Há, Gatinha?”, o seu primeiro trabalho em longa-metragem para cinema como roteirista, realizado enquanto tinha 28 anos. Peter Sellers, Peter O’Toole, Romy Schneider e Ursula Andress eram os nomes principais no elenco da comédia.

Logo após “O Que é Que Há, Gatinha?”, Woody Allen estava envolvido com o filme que representaria o seu debut como cineasta. Trata-se de “O que Há, Tigresa?”, uma brincadeira com uma artimanha que atualmente é uma febre: a redublagem de materiais filmados em outro idioma. No caso de “O que Há, Tigresa?”, o cineasta modificou toda a história e diálogos de um filme japonês obscuro. Três anos depois, mais um filme como cineasta com uma nova artimanha pioneira: em “Um Assaltante Bem Trapalhão”, Allen inaugura o mockumentary, ou falso documentário. Séries como “Modern Family” e “The Office” e a maioria dos filmes de Christopher Guest (“Esperando o Sr. Guffman”, “O Melhor do Show”) são claras influências do estilo.


Anos 70: Amadurecimento

Diane Keaton e Woody Allen contracenando em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”: amadurecimento e consagração.

“Bananas”, “Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar” e “O Dorminhoco” são comédias com momentos que ficam gravados na memória de tão hilários, mas o grande Woody Allen que conhecemos hoje se mostra apenas a partir de “A Última Noite de Bóris Grushenko”. É nesta comédia de época, uma sátira filosófica que destaca um plano para assassinar Napoleão, que ele compensa a ausência de uma formação formal como realizador, fazendo um filme impecável em todos os sentidos.

A seguir, vem “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, o filme que consagra Woody Allen como um dos maiores artistas autorais americanos. A melancólica história é centrada em Alvy Singer (o próprio Allen) e Annie Hall (Diane Keaton), que formam um casal com altos e baixos que são mostrados ao longo de uma hora e meia. Grande sucesso de bilheteria, a fita arrebatou quatro Oscar (melhor filme, diretor, atriz e roteiro original) e é considerada por muitos como a obra-prima do cineasta. Há ainda “Interiores” e “Manhattan” produzidos na mesma década. “Interiores” é de longe o drama mais bergmaniano de Woody Allen enquanto “Manhattan” ele quase repete o mesmo sucesso que experimentou com “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”.


Anos 80: Nostalgia e Intimidade

Gena Rowlands e Gene Hackman em cena de “A Outra”: maior compreensão sobre o íntimo dos personagens.

Woody Allen não entrou nos anos 1980 em sua melhor forma. “Memórias” e especialmente “Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão” são duas produções com histórias que não envolvem emocionalmente. Alguns podem discordar sobre isto quanto a “Memórias”, do qual o próprio Woody Allen considera um dos seus melhores filmes e constantemente associado a “8½” (uma das obras mais populares de Federico Fellini). De qualquer forma, Woody Allen retoma o fôlego em suas obras posteriores. Com exceção de “Zelig” (o retorno de Woody Allen ao estilo mockumentary de “Um Assaltante Bem Trapalhão”) e o segmento “Édipo Arrastado” de “Contos de Nova York”, os seus filmes deste período parecem nos comunicar muito sobre quem realmente foi Woody Allen antes da fama.

“A Rosa Púrpura do Cairo” tem lances fantasiosos, mas é, acima de tudo, uma verdadeira homenagem ao cinema e que representa todo o amor de Woody Allen por esta arte capaz de produzir imagens poderosas. Já “A Era do Rádio” parece ainda mais autobiográfico, com os inúmeros acontecimentos de uma época que não voltará jamais. Quando era questionado em entrevistas sobre essas ligações, Woody Allen as negava. No entanto, nunca conseguiu se desassociar de “Broadway Danny Rose”, do qual admite ter se inspirado no relacionamento com os seus agentes quando ainda fazia stady up comedy. Já “Hannah e Suas Irmãs”, “Setembro”, “A Outra” e “Crimes e Pecados” é onde se vê Woody Allen mergulhando no íntimo dos seus personagens com uma intensidade vista somente em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e “Interiores”.


Anos 90: Contemporaneidade

Judy Davis, Woody Allen e Mia Farrow em “Maridos e Esposas”: crises de casais modernos.

Aqui, Woody Allen lançou três obras que fazem o espectador mergulhar em outra época. Elas são “Neblina e Sombras”, “Tiros na Broadway” e “Poucas e Boas”. Neste trio, só obteve sucesso com “Tiros na Broadway”, notório por ser o seu último filme a encantar as principais premiações cinematográficas (bom, isto até “Meia-noite em Paris”).

A verdade é que nesta década Woody Allen precisava se inovar, uma vez que se viu diante de uma plateia muito distinta daquela que o acompanhou com grande entusiasmo nas décadas anteriores. Assim, passou a compreender as relações modernas com “Simplesmente Alice” e “Maridos e Esposas”, arriscou se aventurar pelo thriller em “Um Misterioso Assassinato em Manhattan”, fez de Mira Sorvino uma carismática prostituta em “Poderosa Afrodite”, transformou “Todos Dizem Eu Te Amo” em um musical contemporâneo, encenou a artificialidade das relações humanas em “Desconstruindo Harry” e também da fama em “Celebridades” e até rodou um filme para a tevê, “Quase Um Sequestro”.


2000-2012: Filmes Menores e Novos Rumos

Woody Allen dirige a sua mais nova musa Scarlett Johansson em “Match Point”, obra-prima do cineasta.

Qualquer fá de Woody Allen reconhece que o começo dos anos 2000 foi aquele a representar a fase menos inspirada em toda a sua carreira. Com um contrato de quatro filmes com a Dreamworks (estúdio de Steven Spielberg), o diretor pareceu ter se deslumbrado demais com o orçamento um pouco acima daquilo que estava habituado, criando histórias esquecíveis. “Trapaceiros”, “O Escorpião de Jade” (talvez o filme mais caro de toda a sua carreira – custou 26 milhões de dólares), “Dirigindo no Escuro” e “Igual a Tudo na Vida” (aquele que, particularmente, considero o seu pior filme) são exatamente assim.

Livre da Dreamworks, Woody Allen teria que arregaçar as mangas caso quisesse continuar rodando um filme por ano, uma vez que ninguém mais ia aos cinemas conferir os seus longas. “Melinda e Melinda”, que ele fez com dinheiro da Fox Searchlight Pictures (a Fox independente), não cativou com sua mistura confusa entre drama e comédia. A grande virada estava para vir a seguir com “Match Point”, esplêndido thriller que se tornou o maior sucesso financeiro em toda a sua carreira (lugar atualmente ocupado por “Meia-noite em Paris”). O filme apresentou um Woody Allen que ninguém conhecia e também se tornou a primeira produção rodada por ele fora de Nova York.

Com exceção de “Tudo Pode Dar Certo”, todos os roteiros que escreveu após “Match Point” foram feitos para o que a imprensa apelidou de “tour de Woody Allen pela Europa”, havendo mais três paradas na Inglaterra (“Scoop – O Grande Furo”, “O Sonho de Cassandra” e “Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”), uma na Espanha (“Vicky Cristina Barcelona”), uma na França ( “Meia-noite em Paris”) e uma na Itália (“Para Roma, com Amor”). Atualmente, Woody Allen filma um projeto ainda sem título na sua querida Nova York, contando com Cate Blanchett (com quem finalmente realiza o sonho de trabalhar junto), Alec Baldwin (em terceira parceria após “Simplesmente Alice” e “Para Roma, Com Amor”) e Sally Hawkins (com quem já havia trabalhado em “O Sonho de Cassandra”).


Vida Pessoal

Soon-Yi Previn (esquerda), Mia Farrow (centro) e Woody Allen (direita): relação polêmica.

Woody Allen é famoso pelas atitudes cafajestes com o poder que exerce como autor. Afinal, só mesmo na ficção para um sujeito pequenino, que ostenta óculos com grossa armação negra, falastrão e magricela para conseguir levar para a cama personagens interpretadas por beldades como Julia Roberts (“Todos Dizem Eu Te Amo”) e Mira Sorvino (“Poderosa Afrodite”). Porém, se engana quem o ache incapaz de seduzir belas mulheres com suas neuroses para o lado de cá da tela. Ainda jovem, Woody Allen teve um relacionamento de seis anos com Harlene Susan Rosen (o divórcio se deu em 1962). Quatro anos depois, se casou com Louise Lasser, atriz que incorporou personagens de destaque nos seus primeiros longas-metragens. Novamente acabou em divórcio, o que o fez namorar com Diane Keaton por algum tempo – ambos chegaram a viverem juntos, mas no fim acabaram sendo apenas bons amigos.

O capítulo polêmico dos relacionamentos de Woody Allen se chama Mia Farrow. Musa em nada menos do que treze filmes seguidos, Mia foi trocada por ninguém menos que Soon-Yi Previn, filha adotiva de Mia nos tempos em que ainda era casada com o compositor alemão André Previn. Casados desde o final de 1997, Woody Allen e Soon-Yi Previn têm dois filhos e atualmente vivem tranquilos sem o escândalo provocado na época em que a união se tornou pública.

Nos tempos livres, Woody Allen curte a família e pratica exercícios regularmente, o que justifica a sua vitalidade ao dirigir com nada menos do que 76 anos. Também continua tocando a clarineta com a sua banda em bares nova-iorquinos (o hobby tornou notório o episódio em que Woody Allen faltou à cerimônia do Oscar que consagrou “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, pois ele preferiu tocar com a sua banda ao invés de pegar as estatuetas de melhor direção e roteiro). No entanto, o seu vício em produzir observações que futuramente se converterão em filmes permanece incurável. Se ele estiver hospedado em quartos de hotéis luxuosos ou caminhando a esmo pelas ruas de Nova York pode ter certeza de que inspirações estão surgindo para seu próximo filme.

Obs: A nossa postagem sobre a vida e carreira de Woody Allen será dividida em três partes.

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9 Respostas para “Diretor: Woody Allen | Perfil | Parte I

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  3. Eu sou mega suspeito pra falar de Woody Allen, e acredito que, de tantas biografias (e informações avulsas) que li, você começou cumprindo bem essa primeira parte.

    Parabéns, véio.

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