360

Uma narrativa que contém vários personagens com destinos que se cruzam não é novidade. Atualmente, ela está mais presente do que nunca no cinema. Isto se dá pela globalização no mundo, pois a interação de indivíduos que pertencem a realidades distintas é possível. A melhor obra a representar isto é “Babel”, em que Alejandro González Iñárritu conduz histórias protagonizadas por personagens de línguas, etnias e classes sociais distintas. Mesmo que não seja tão audacioso quanto Iñárritu, Fernando Meirelles quer provar com “360” que estamos todos conectados.

Baseado em um texto teatral de Arthur Schnitzler, a história de “360” inicia com Mirka (Lucia Siposová). Acompanhada pela irmã Anna (Gabriela Marcinkova), Mirka deseja ganhar a vida como uma prostituta em Viena. Torna-se assim Blanka e tem como primeiro cliente Michael Daly (Jude Law), inglês casado com Rose (Rachel Weisz) que está em viagem de negócios. Embora o encontro entre os dois não seja concretizado pela intromissão repentina de dois vendedores (papéis de Moritz Bleibtreu e do roteirista Peter Morgan) que perseguem Michael, um clima denso entre ele e Rose se impõe quando eles se reencontram em Londres, uma vez que ela mantinha em segredo um relacionamento com Rui (Juliano Cazarré), fotógrafo brasileiro comprometido com Laura (Maria Flor).

Ir além disto seria descrever exatamente tudo o que ocorre em “360”, mas neste ponto é possível notar a estrutura circular do roteiro, que contornará por outros personagens até finalmente chegar em Mirka, aquela que representa o ponto de partida do drama. Infelizmente, todo o rigor de Fernando Meirelles em respeitar essa estrutura transforma “360” em um filme preenchido de personagens em sua maioria rasos com tormentos internos banais.

Para um filme como “360” funcionar é necessário que o drama de seus personagens sejam explorados ao máximo com o tempo curto que eles têm em cena. Isto não acontece por culpa do péssimo texto de Peter Morgan. Sabe-se que é difícil não recorrer em coincidências em histórias como esta, mas o roteirista força a barra ao conectar seus personagens. Um dos vários exemplos que são encontrados ao longo de “360” é a interação entre Laura e Tyler (Bem Foster). Presa em um aeroporto, Laura decide eliminar suas angústias tentando seduzir justamente Tyler, sujeito que acaba de abandonar a prisão após ser acusado por abuso sexual. Ou seja: temos aqui estranhos que são conectados de maneira forçada, não naturalmente.

Além disso, se a intenção era transformar “360” em um filme universal com sua dedicação em rodar sequências em locações de países diferentes e com intérpretes de nacionalidades diferentes, o resultado é falho. Não importa se os personagens são brasileiros ou se a ação acontece na Áustria, as circunstâncias os farão interagirem em inglês. Nesta sua terceira aventura como cineasta fora do Brasil, Fernando Meirelles errou feio.

Título Original: 360
Ano de Produção: 2011
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Peter Morgan, baseado na peça “Reigen”, de Arthur Schnitzler
Elenco: Anthony Hopkins, Lucia Siposová, Ben Foster, Gabriela Marcinkova, Danica Jurcová, Jamel Debbouze, Johannes Krisch, Jude Law, Juliano Cazarré, Dinara Drukarova, Mark Ivanir, Moritz Bleibtreu, Patty Hannock, Vladimir Vdovichenkov, Rachel Weisz, Maria Flor, Sydney Wade, Peter Morgan e Marianne Jean-Baptiste

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6 Respostas para “360

  1. Ih rapaz, desde que foi exibido, o filme não tem lá grandes defensores. O interesse maior não só por ser de Fernando Meireles, mas também pelo roteiro adaptado de Peter Morgan, ainda é um atrativo. E tem o elenco estelar. O melhor é ir sem expectativa. Tomara que o tombo não seja tão grande.

    • Rafael, eu pensei que a recepção negativa não passasse de um mero detalhe. Afinal, “Blindness” também não colheu elogios e ainda assim é um bom drama. Mas a coisa nesse “360” é muito feia. Estou ansioso para ver as reações gerais quando este filme chegar no nosso país. Prevejo que não serão muito agradáveis.

  2. Gosto muito do Fernando Meirelles como diretor e confesso que a minha maior curiosidade em relação à “360” é justamente tentar ver onde foi que o diretor errou, porque esse é um filme que tem sido muito mal recebido pela crítica…

    • Não morro de amores por Fernando Meirelles. Teve um momento extraordinário com “Cidade de Deus” e jamais se superou. E o que não falta nesse “360” é encontrar seus (inúmeros) erros, acredite.

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