Precisamos Falar Sobre o Kevin

Tem sido cada vez mais constante testemunhar vários veículos noticiando de uma só vez tragédias que atingiram instituições de ensino. Em quase todos os casos, trata-se de alunos que se rebelaram contra colegas de classe e professores, transformando a escola em palco de um massacre. Em abril do ano passado, os brasileiros puderam sentir na pele o desespero de uma tragédia como esta quando um atirador invadiu uma escola de Realengo, se matando após tirar a vida de onze crianças. Na busca incessante em desvendar as motivações que levam esses indivíduos a cometerem atos tão chocantes, bem como os sonhos que as vítimas tinham para o futuro, algo fica em segundo plano: o choque que abate os pais do culpado. Pois no perturbador “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, esta lacuna é devidamente preenchida.

Adaptação do romance homônimo da escritora americana Lionel Shriver, o drama incomoda em seus primeiros momentos com a mistura de inúmeros recortes da vida de Eva (Tilda Swinton), mas não demoramos a antecipar o que realmente atingiu esta mulher, nascida na Armênia e que em dias atuais procura por emprego em agências de viagem. Frequentemente Eva vai à prisão visitar Kevin (Ezra Miller), primeiro filho que teve com Franklin (John C. Reilly). Eles mal são capazes de se encararem e Eva tem a sua vida transformada em um inferno quando todos em sua volta parecem culpá-la por um crime cometido pelo filho.

Rapidamente a narrativa, que não segue uma ordem cronológica, substitui as cenas aleatórias para compreender de forma mais firme a relação de mãe e filho, desastrosa desde o instante que Eva deu a luz para Kevin. Aos seis anos, Kevin (nesta fase feito por Jasper Newell) assume uma postura assustadora diante da mãe, como se fosse a encarnação do diabo: além de usar fraudas apenas para provocar Eva, Kevin tem um relacionamento totalmente distinto com Franklin, comportando-se como um filho exemplar apenas diante do pai.

Títulos baseado em eventos reais como “Elefante” e “Polytechnique” se dedicaram, cada um a sua maneira, em investigar ou apenas acompanhar o perfil perturbador de seus protagonistas, sugerindo o que os motivaram a usar armas e somar um alto número de vítimas. Apenas o recente “Tarde Demais” deu realce para os pais do assassino, incapazes de processarem a tragédia. “Precisamos Falar Sobre o Kevin” não apenas supera todas as obras citadas como tem potencial para se tornar o registro mais relevante já feito sobre massacres escolares.

Diretora e roteirista, a inglesa Lynne Ramsay driblou as divergências e entregou uma extraordinária adaptação. Sem a possibilidade de reproduzir o mesmo recurso usado pela escritora Lionel Shriver em seu best-seller (do qual acompanhamos a história de Eva através de cartas que ela endereça a Franklin), restou para Ramsay contar com o extremo talento de Tilda Swinton para ter uma Eva emocionalmente estraçalhada. Sem diálogos, a atriz é capaz de transmitir apenas em mínimas reações todos os seus tormentos de uma mãe pela qual sentimos imensa pena por servir injustamente de alvo para as atitudes de seu filho. Um desempenho soberbo, e é preciso também destacar os três atores que vivem Kevin ao longo de sua vida, especialmente Jasper Newell na infância e Ezra Miller na adolescência.

Ir além disso não interessa muito para Lynne Ramsay. Em “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, o massacre cometido por Kevin não é orquestrado de maneira explícita e o porquê de fazê-lo tem uma resolução que deixará ainda mais questionamentos com o público. É exatamente por isto que “Precisamos Falar Sobre o Kevin” é uma obra marcante. Estarmos presos em uma sociedade que auxiliam a moldar pessoas como Kevin, independente das condições com o qual foram criadas, e saber o quão frágeis somos diante de um massacre é muito mais assustador do que qualquer justificativa, especialmente se a ligação é direta.

Título Original: We Need To Talk About Kevin
Ano de Produção: 2011
Direção: Lynne Ramsay
Roteiro: Lynne Ramsay e Rory Kinnear, baseado no livro “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, de Lionel Shriver
Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Ashley Gerasimovich, Siobhan Fallon, Alex Manette e Rock Duer
Cotação: 4 Stars

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14 Respostas para “Precisamos Falar Sobre o Kevin

  1. FYC:
    – Best Picture
    – Best Director
    [Lynne Ramsay]
    – Best Actress in a Leading Role [Tilda Swinton]
    – Best Actor in a Supporting Role [Ezra Miller]
    – Best Actor in a Supporting Role [Jasper Newell]
    – Best Writing, Adapted Screenplay [Lynne Ramsay and Rory Kinnear]

  2. Faz tempo que estou interessante pelo filme e você me deixou ainda mais. O assunto é muito delicado e tentar explicar as motivações de alguém como o “Kevin” do filme é algo difícil. Pelo jeito o filme tem muitos acertos, como a Tilda Swinton.
    Algo que me chamou a atenção também foi a sua preferência deste filme em relação a Elefante, trabalho de Gus Van Saint que gosto muito.
    Em breve assisto e comento.

  3. Eu estou bastante ansiosa para este filme, especialmente porque ele mostra um lado diferente dessas tragédias causadas por atiradores solitários. E, claro, me atrai muito a atuação elogiadíssima de Tilda Swinton na obra. :)

  4. Também fiquei impressionado com o trabalho de Ramsay na direção e por trás da adaptação do livro. Aliás, só tenho a dizer que concordo com todos os pontos que você apresenta aqui. Talvez a realização mais impecável que vi num filme de 2011.

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