Além da Vida

Estamos longe de decifrar os mistérios que cercarão o fim de nossa existência. Isto assegura a força de muitas crenças. Há aqueles que acreditam em missões que deverão ser cumpridas no plano espiritual após viver no plano material. Outros acreditam que essas missões acontecerão aqui, justificando a existência humana. Há muitas interpretações existentes que renderiam muitos debates e conflitos e “Além da Vida” esforça-se em apresentar ao menos três núcleos comoventes sobre pessoas que se aproximaram da morte e tentam compreendê-la.

Através do uso extraordinário de efeitos visuais que deixaria Roland Emmerich envergonhado por todo o seu cinema catástrofe (tendo recebido merecidamente uma indicação ao Oscar na categoria), “Além da Vida” nos mostra a primeira de três personagens que acompanharemos, a jornalista francesa Marie Lelay (Cécile De France). Ela está de passagem na Tailândia com seu amante Didier (Thierry Neuvic) e como o ano é 2004 não demorará a desvendarmos que ela será vítima do tsunami que varreu a cidade. Antes que seja socorrida, passa por alguns minutos pela EQM, Experiência de Quase-Morte. Recuperada, Marie passa por um período de autoconhecimento, com intenção de descrever com um livro este trágico episódio.

A seguir, conhecemos os irmãos gêmeos Marcus e Jason (Frankie e George McLaren). Com residência em Londres, ambos, com doze anos de idade, se dedicam em cuidarem da mãe (Lyndsey Marshal), que sofre da dependência química e corre o risco de perder os filhos para o Serviço Social. Um infeliz acidente provoca a morte de um deles.

Por fim, George Lonnegan (Matt Damon) é o terceiro personagem central de “Além da Vida”, um sujeito que se esgotou da própria condição de médium. Se comunicar com pessoas do “outro lado” não apenas fez com que indivíduos em luto dependessem do seu dom, como o impossibilitou de criar vínculos com pessoas que não estejam necessariamente interessadas na vida após a morte. Nestes trechos de George, é importante destacar a participação de Bryce Dallas Howard, intensa como a muito não se via na pele de Melanie, que terá com o personagem fortes afinidades.

O roteirista inglês Peter Morgan inevitavelmente concebeu uma narrativa forte, mas que não está livre de algumas ressalvas. Conforme “Além da Vida” se desenvolve e os laços que unirão os personagens se tornam mais visíveis, o texto vai ficando incomodamente frágil e previsível. A razão do personagem de Matt Damon apreciar tanto o escritor Charles Dickens é apenas uma saída fácil para justificar parte do terceiro ato. Por outro lado, a direção sempre firme de Clint Eastwood jamais permite que “Além da Vida” se transforme em um dramalhão nada sutil e reforça a vontade de seu realizador de que, independente dos enigmas da morte, viver plenamente é o que realmente importa.

Título Original: Hereafter
Ano de Produção: 2010
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Peter Morgan
Elenco: Matt Damon, Cécile De France, George McLaren, Frankie McLaren, Bryce Dallas Howard, Thierry Neuvic, Jay Mohr, Richard Kind, Jessica Griffiths, Stéphane Freiss, Jenifer Lewis, Marthe Keller e Derek Jacobi
Cotação: 3 Stars

Anúncios

10 Respostas para “Além da Vida

  1. A última sentença de sua resenha resume o principal objetivo da obra, e é até triste ver que muitas pessoas que não apreciaram o filme não o observaram sob esse plano. Como você ressalta, o texto de Morgan (e eu diria a própria direção de Eastwood também, em certos momentos) não está imune a deslizes, mas é bom ver que ele se desenvolve por caminhos muito mais interessantes, sensíveis e humanos do que se poderia esperar. 6/10

  2. Acho muito interessante a coragem do Eastwood em assumir um filme de um tema que não me parece tão caro ao cineasta, mas ele se saiu muito bem na tarefa, dando consistência à história de cada personagem central. Só acho que quando ele assume as viagens espirituais o filme perde um pouco. Mesmo assim, não deixa de ser um ótimo filme, já que acho bem fraquinhos os três trabalhos anteriores dele. E de fato Bryce Dallas Howard está sensacional aqui, é a minha coadjuvante do ano até então.

  3. Pingback: A Morte e a Vida de Charlie « Cine Resenhas·

  4. Pingback: Retrospectiva 2011 « Cine Resenhas·

  5. Pingback: Melhores de 2011 – Indicados « Cine Resenhas – 5 Anos·

  6. Pingback: Melhores de 2011: Efeitos Visuais « Cine Resenhas – 5 Anos·

  7. Pingback: Melhores de 2011: Atriz Coadjuvante « Cine Resenhas·

  8. Pingback: O Impossível | Cine Resenhas·

  9. Pingback: Cine Resenhas | Resenha Crítica | O Impossível (2012)·

Opine!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s