Tudo Azul

Tudo Azul - KablueyA frase destacada no poster internacional de “Tudo Azul” nos dá uma clara noção da excentricidade da comédia: “Toda família tem uma ovelha negra. Está é azul”. E a frase é levada a sério por Scott Prendergast, que além de protagonizar também se responsabiliza pela direção e roteiro de “Tudo Azul”. E é bom ficar atento ao nome de Scott Prendergast. Depois de três curtas-metragens, Prendergast tem aqui a sua estreia na direção de um longa-metragem. E o seu primeiro passo se dá com um projeto pequeno, independente. Mas certamente se trata de uma dos títulos mais originais dentro do cinema independente.

O início do filme se dá com Leslie (Lisa Kudrow, em um grande momento de sua carreira) desesperada com a situação atual de seus filhos endiabrados, Lincoln e Cameron (interpretados respectivamente por Landon Henninger e Cameron Wofford). O seu marido teve que partir para a Guerra no Iraque e ela descobre que só há o seu cunhado Salman (Scott Prendergast) como única pessoa disponível para lhe auxiliar neste momento difícil. Ela o convida para morar em sua casa, com a condição de que terá que cuidar de seus filhos. Mas como as coisas não dão certo (Lincoln e Cameron de fato parecem demônios em miniaturas), Leslie consegue encaixar Salman em uma vaga na estranha empresa onde trabalha, pois assim ele pode contribuir para que as crianças fiquem em uma escola particular por tempo integral.

Pior emprego ele não poderia arrumar. Salman veste a roupa esponjosa do Kabluey, a criatura azul e fofa que estampa o logotipo da empresa comandada por Brad (Jeffrey Dean Morgan, o Comediante de “Watchmen – O Filme“), do qual Leslie é assistente. Mas o seu dever é ainda mais ingrato: ele precisa distribuir panfletos e o local é uma estrada ensolarada e sem qualquer movimento. Mas as adversidades não assolam somente os personagens centrais de “Tudo Azul”, como se pode analisar nas pessoas que cruzarão de maneira inusitada o seu caminho, como a neurótica Suze (a impagável Teri Garr, eternamente lembrada como a melhor amiga de Dustin Hoffman em “Tootsie”).

Os acontecimentos iniciais são hilariantes. A começar, claro, quando vemos Salman se virando naquele que foi o seu último emprego, que era o de plastificar os mais diversos documentos – o sujeito se empolga tanto com o ofício que chega até mesmo a plastificar as cédulas da caixa registradora. Mas o filme segue um caminho parecido com aquele apresentado em “Pequena Miss Sunshine“, com o diferencial de fazê-lo com uma maestria ainda maior. É dentro desse humor que começa a aflorar a sensibilidade do filme, tornando-se um registro comovente sobre os efeitos devastadores que a ausência de afeto pode causar em qualquer ser humano. Este sentimento é visto como metáfora na própria fantasia de Salman, que só é capaz de tocar algum objeto e de se mover com maior leveza quando está presente alguma pessoa que possa ajudá-lo. Isto também é perceptível em Leslie, que se tornou uma pessoa fria após imaginar que o seu marido pode não mais regressar ao seu lar (e Lisa Kudrow eleva ainda mais esta emoção em um devastador plano sequência onde vemos a sua personagem se desintegrando aos poucos), e na conduta dos seus filhos, que obviamente sofrem com a ausência de uma figura paterna. Maravilhoso!

Título Original: Kabluey
Ano de Produção: 2007
Direção: Scott Prendergast
Elenco: Scott Prendergast, Lisa Kudrow, Christine Taylor, Conchata Ferrell, Jeffrey Dean Morgan, Teri Garr, Angela Sarafyan, Cameron Wofford, Landon Henninger, Patricia Buckley e Chris Parnell.
Cotação: 4 Stars

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16 Respostas para “Tudo Azul

  1. esse tá na lista dos próximso 30 filmes em que eu verei. Ele tem cara de “sábado de manhã” então provável que vereinuma data dessas.

  2. Nossa Alex, depois desse teu texto e da sua nota, já estou pegando este filme. E já aviso que estou criando expectativas por sua culpa! hehehe. Ah, só uma coisa, estou vendo que vc está lendo o livro “O Clube do Filme”, do David Gilmour. Vc está gostando? Do que se trata? Sou fã incondicional do David Gilmour, por causa do Pink Floyd (minha banda preferida), então se vc me disser que o livro dele é bom, tentarei arrumar um tempinho para lê-lo tb. Abração!

  3. Wally, é um filme pouco conhecido entre os cinéfilos mesmo. Para você ter uma ideia, ele foi exibido somente em quatro salas nos Estados Unidos em sua estreia. Chega no final deste mês as locadoras.

    Ricardo, gosto muito do cinema americano independente e sempre procuro ficar bem sintonizado em algumas novidades. Neste processo, acabei descobrindo este “Kabluey”. Também adoro “Transamérica”. Tenho ele em DVD. Abraço.

    Vinícius, Lisa Kudrow é uma das minhas atrizes preferidas e em “Kabluey” ela simplesmente se supera.

    Pedro, então não deixe de ver.

    Marcelo, “Kabluey” é um filme para qualquer dia e horário, mas pode ser um título excelente para aqueles momentos que precisamos assistir a algo que eleve o nosso otimismo.

    Bruno, veja mesmo. Seria ótimo saber que as pessoas estão procurando por ele. Mas não me espanque caso você acabe não gostando, okay? XD Ah, e sobre “O Clube do Filme” vamos esclarecer uma coisa: o David Gilmour autor do livro é um crítico canadense e não o ex-membro do “Pink Floyd”, banda que também adoro! Rs. Mas não tem problemas, sei que houve várias pessoas que também se confundiram. Bom, estou quase finalizando a leitura, ainda falta alguns capítulos. Até então, está regular. Os cinéfilos devem admirar todas as sessões de filmes comentadas ao longo do livro e as experiências que elas renderam, mas o relacionamento entre pai e filho é para lá de absurdo. É que David Gilmour tem um filho de quinze anos que detesta estudar. E o que ele faz? Tira o filho da escola sob uma condição: deve assistir com ele três filmes por semana. Raramente vi um retrato de um pai tão irresponsável quanto este (só lendo o livro para você ter uma ideia das liberdades que ele dá ao seu filho). Quando eu terminar a leitura o aviso sobre o resultado final em seu espaço, beleza? Abração!

  4. Particularmente eu gosto desse tipo de filme, em que o humor é o condutor de uma história mais profunda. Se você me diz que esse filme é mais que Little Miss Sunshine, é porque deve ser imperdível. Procurarei, até porque gosto muito do trabalho da Lisa Kudrow. Abraço!

  5. Luiz, eu também gosto, ainda mais quando é feito com grande maestria. Pode-se dizer que o filme provoca as mesmas proporções de risos e comoção de “Pequena Miss Sunshine”, mas ele consegue ser ainda mais marcante. Espero que encontre e assista. Abraço.

  6. Humm, então é esse o título para Kabluey, só conhecia pelo nome original, ñ sabia q tinha ganhado título nacional, e puts, outro com nota 9.5, estás bem generoso hein..hehe..vou baixar esse pra ver (já tinha o torrent faz tempo), seu texto me animou, fiquei louco pra ver agora!
    Abs! Diego!

  7. Diego, eu preferiria que por aqui também se chamasse “Kabluey”. Mas sabe como é, né? Eu espero mesmo que você possa assistir. É um filme que se tornou para mim uma maravilhosa experiência e espero que ela se repita com todos os interessados. Abraços.

    Mayara, então prepare os equipamentos para a caça, viu? Beijos.

  8. Puxa, que filme Alex !
    eu assiti ele, com um sorriso enorme no rosto e é incrível como o filme tem poder de fazer rir e chorar ao mesmo tempo. É um panorama sobre vários personagens rejeitados.
    Minha nota é 8,5

  9. Marcelo, não disse que o filme valia (muito) a pena? Fico contente em saber que você gostou dele. E é verdade o que você diz sobre este panorama.

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