Quem Quer Ser Um Milionário

Em sua estréia como diretor em 1994 com “Cova Rasa”, o inglês Danny Boyle já recebeu certa notoriedade ao ponto de realizar os seus projetos posteriores circulando por temáticas e gêneros bem distintos. “Quem Quer Ser Um Milionário?”, o seu oitavo filme, evidencia um cineasta que sequer atinge alguma maestria, ainda mais se considerarmos as irregularidades que permeiam toda a sua filmografia (embora “Trainspotting – Sem Limites” seja uma ótima realização). Mesmo assim, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o Oscar, se mostrou bem generoso ao consolidá-lo com o prêmio de Melhor Diretor no último evento. “Quem Quer Ser Um Milionário?” também arrematou as estatuetas que representavam as categorias de Melhor Canção Original, Melhor Som, Melhor Trilha Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme. Só não dá para fazer muitas queixas pela concorrência não ter sido lá muito forte, já que não havia de fato um longa entre os finalistas que fosse excepcional.

Quem Quer Ser Um Milionário? é uma atração televisiva onde os participantes podem faturar uma bolada se responderem corretamente as questões com quatro alternativas (é parecido com o “Show do Milhão”). E é para este programa que o pobre jovem Jamal (a revelação Dev Patel) se inscreve para chamar a atenção da sua amada Latika (a também revelação – e belíssima – Freida Pinto). O que movimenta a trama é as suspeitas que o próprio apresentador Prem Kumar (o ótimo Anil Kapoor) levanta em relação do Jamal. Praticamente um analfabeto, o rapaz acerta todas as perguntas sobre conhecimentos gerais. Mas Jamal não está trapaceando. Como naqueles lances forçados de destinos cinematográficos, as perguntas tem conexão com a infância e adolescência miseráveis do nosso herói.

Essa história em tom de fábula rende bastante, especialmente no seu empolgante terceiro ato, mas o filme não é digno de todo esse reconhecimento. E nem de tanta fúria. Boyle certamente não se deixou levar pelo sucesso de “Cidade de Deus” ao ponto de influencia-lo na realização deste projeto independente (e nem se o fizesse adquiriria um resulto à altura do obtido pela obra máxima de Fernando Meirelles). Também não é um filme ofensivo, que usa da pobreza presente em favelas indianas para criar um espetáculo. Estamos em tempo de crise financeira e os americanos precisam de uma história que os reconforte de alguma maneira, que os façam pensar que o amor é capaz de substituir a falta de grana. E é este o problema: joga-se na lixeira qualquer mérito artístico em troca de uma “fantasia” com final feliz que todo mundo gostaria de ter.

Título Original: Slumdog Millionaire
Ano de Produção: 2008
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy, baseado no romance de Vikas Swarup
Elenco: Dev Patel, Freida Pinto, Anil Kapoor, Irrfan Khan e Madhur Mittal
Cotação: ***

 

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23 Respostas para “Quem Quer Ser Um Milionário

  1. Pois é, postei sobre ele bem recentemente… Concordo plenamente que a conjuntura política/social do momento influenciou na escolha do filme… é um excelente filme, mas longe de ser tão bom, certo?

    PS: A Freida é LIIIINDA mesmo, rs…

  2. “joga-se na lixeira qualquer mérito artístico em troca de uma “fantasia” com final feliz que todo mundo gostaria de ter”. Não poderia discordar mais. Alguns dos grandes filmes da história não tem o que podemos chamar de uma trama tão “realista” – não que acho “Slumdog Millionaire” um dos grandes filmes do cinema…

  3. O Cara da Locadora, exatamemte! É um excelente filme, mas longe de ser tão bom, rs. E a Freida Pinto é a melhor coisa do filme, rs.

    Cleber, concordo. Mas a Academia estava terrível na seleção este ano, viu?

    Vinícius, é proibido discordar de qualquer resenha do autor deste blog. Brincadeira! :P Mas o problema do filme não é por ele não ser tão realista (aliás, é um dos problemas, pois tem absurdos que ocorrem ali que não dá!). Na verdade, não passa de um bom filme. O problema é que é aquele típico exemplo de “filme certo na hora certa”. Em tempos de crise, ele veio bem a calhar para o público internacional.

  4. Concordo com quase tudo o que você escreveu no último no parágrafo. Porém, na minha opinião, era o filme mais diferente concorrendo ao Oscar. Ou seja: digno de todo esse reconhecimento.

    Abs!

  5. Oi Alex! Não vejo problema se um filme acerta em cheio no sentimento de qualquer plateia – seja americana ou brasileira. Até aí, STAR WARS, o de 77, foi um puta ânimo para os americanos devastados pela Guerra do Vietnã e o escândalo de Richard Nixon. Foi um baita sucesso, alegrou muita gente e, ao mesmo tempo, não é desprezível como arte. Falo isso de forma geral, claro. Cinema é um prazer individual, obviamente, mas é também uma experiência coletiva. Neste caso, SLUMDOG MILLIONAIRE é o filme certo na hora certa. E é bom. E tem seu mérito como arte, embora não seja inovador. Mas quem é realmente inovador em termos de cinema desde Kubrick ou Scorsese, Tarantino? O problema é esse peso de “vencedor do Oscar”. E somos nós que causamos isso. Vários filmes “pequenos” disputaram o Oscar e são alvos de críticas: SIDEWAYS, JUNO e tantos outros. Mas são belos filmes. Não importa se veio com a marca Oscar nele. SLUMDOG chegou ao Brasil, por exemplo, já com o peso de “filme amado pelos americanos”, e bem na maldita hora em que a Globo trabalhava a estreia da nova novela das oito. Enfim, gera aversão e outros “ãos”.

    Abs!

  6. Adoro o cinema de Danny Boyle desde os primeiros filmes e achei que esse filme (tirando A praia que foi literalmente cagado) o mais fraco dele. Acho que não merecia tanto Oscars assim, e apesar de eu nem dar ligança pra esse prêmio acho que tinham filmes (O lutador, O leitor) que mereciam mais reconhecimento. Engraçado que o diretor fez um filme em 2004 ” Caiu do Céu” que falava de dois garotos as voltas com uma mala de dinheiro, que eu particularmente achei melhor do que esse Millionaire.

  7. Dudu, ainda bem que concordou com alguma coisa, rs. E de fato era o longa mais distinto de toda a seleção, mas não achei o melhor. Abraços!

    Otavio, deve ser por isso que não gosto tanto de “Star Wars”, rs. Sem brincadeiras, eu também não vejo problema nisto. O que quis dizer é que “Quem Quer Ser Um Milionário” não é um filme especial, carrega alguns problemas, embora não seja medíocre. E eu não ligo se o filme carrega ou não algum rótulo de Oscar. Afinal, embora essa semana eu esteja me dedicando a publicar somente sobre os filmes que receberam indicação ao principal prêmio do evento, conferi “Quem Quer Ser Um Milionário?” antes mesmo da divulgação dos indicados ao evento e já havia definido a minha opinião diante da obra após assisti-la. Abraços!

    Marcelo, para mim “A Praia” é um dos piores filmes de sempre! E não é só por causa do Leonardo DiCaprio, que fique claro. Só de me lembrar daquela cena “meio vídeo-game” presente no filme já tenho enjôo. E o filme de fato não merecia tanta atenção assim. Fico extremamente decepcionado em ver que filmes como “Dúvida”, “Há Tanto Tempo que Te Amo”, “Simplesmente Feliz” ou “O Casamento de Rachel”, que são melhores produzidos e que tem tanto para nos mostrar, ficarem de fora. E “Caiu do Céu” é um filme adorável, de fato bem melhor que “Quem Quer Ser Um Milionário?”.

  8. Adorei esse filme do Danny Boyle, muito interessante e excepcionalmente bem feito, a história do garoto é cativante, e a maneira com que tudo é contado se destaca positivamente, o diretor se apega em várias frentes na condução do enredo mostrando diversos pontos ao mesmo tempo num brilhante trabalho de montagem, tudo muito bem realizado e mostrado no capricho, o final é brilhante e ótimo, porém, não vou negar que estava esperando outra coisa bem diferente, no fim, errei feio, mas valeu, gostei do final e do filme num todo foi maravilhoso assistir, só achei que faltou mais números musicais, além daquele nos créditos, destaque também para ótima trilha sonora. nota 8.5!
    Abs! Diego!

  9. O pecado principal de QUEM QUER SER UM MULIONÁRIO é um roteiro que repete uma fórmula que usa das seguintes ferramentas para impactar o espectador: violência, romance, lei de que o mais fraco vence, entre inúmeras outras. Um filme que passa a imprensão de ser genérico o tempo inteiro. Vemos várias semelhanças com CIDADE DE DEUS. Seria isso uma coincidência?! Acho que não. Há até uma cena que é idêntica à produção brasileira.

    SORO: fotografia; elipses; montagem; locações.

    VENENO: criatividade do roteiro.

    NOTA (0 a 5): 4
    ****

  10. “joga-se na lixeira qualquer mérito artístico em troca de uma “fantasia” com final feliz que todo mundo gostaria de ter”. Não poderia discordar mais. [2]

    Não é falha do filme ter sido lançado na hora certa com a mensagem certa. Alias, é apenas mérito e o que trouxe seu reconhecimento. Se tivesse sido lançado há 10 anos, o filme teria sido tão bom quanto, só não teria sido tão consagrado. Eu acho um filme majestoso em sua concepção e seu efeito.

    Nota 9.5

  11. Matheus, se eu o achasse excelente (ou mesmo ótimo) ele seria para mim digno de reconhecimento. Mas não foi o caso…

    Gustavo, não sabia que ele ia sair direto em DVD. Sei que muito foi discutido por parte da distribuidora em relação do título nacional.

    Pedro, comigo não aconteceu isso. Houve muitas passagens no filme que resultaram em bocejos da minha parte.

    Mayara, é verdade. Mas já assisti filmes que sabem lidar com esses três temas de forma muito melhor. Beijos, tudo de bom!

    Diego, ao desfecho também fiquei com a sensação de que iria conferir a um filme diferente. A trilha-sonora ao qual você destaca é um dos grandes acertos da fita, mas não senti a ausência de números musicais, o filme ficaria deslocado se conferisse mais algum número além daquele que vemos no rodar dos créditos finais.

    Anderson, eu não acho mesmo que o filme tem alguma marca de “Cidade de Deus”. Mas a criatividade do roteiro (ou a falta dela) em diversos momentos da fita prejudicam mesmo!

    Wally, o que quis dizer não é que o filme não seja tão bom por trazer uma moral correta ao momento ao qual vivemos, mas sim por ela ter sido mais expressiva do que qualquer outra coisa, inclusive nos erros que “Quem Quer Ser Um Milionário” percorre para anunciá-la.

  12. Vi esse filme logo assim que entrou em cartaz aqui no brasil. Assim que sai do cinema, fiquei tentando entender o motivo pela Academia tê-lo premiado em tantas categorias sendo que o filme não é uma obra prima. Para mim é apenas uma boa história (cheia de clichês) bem contada. Considero um ótimo filme para sessão da tarde e não digno de Oscar. Mas entendo perfeitamente que os critérios ali utilizados para a premiação foram de ordem politica e não de ordem de talento ou competência.

  13. Etiene, o seu comentário bate perfeitamente sobre o que penso sobre o filme. Como havia descrito ao final do último parágrafo, “joga-se na lixeira qualquer mérito artístico em troca de uma “fantasia” com final feliz que todo mundo gostaria de ter”.

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