Ensaio Sobre a Cegueira

No espaço virtual onde o cineasta brasileiro Fernando Meirelles dissecava sobre a construção de seu novo longa internacional, Diário de Blindness, acredita-se que muitos leitores e os admiradores pelo seu trabalho no cinema puderam notar as dificuldades e cuidados ao adaptar um romance de amplo sucesso e  que  já sinalizava divergências futuras  entre o público mais conservador. O resultado que Meirelles conseguiu com o seu “Ensaio Sobre a Cegueira”, um projeto que o cineasta lutava por anos para adaptar até receber aprovação de José Saramago (autor do romance), é um drama menos complexo do que se imaginava, ordenado com criatividade, mas com muita insegurança.

Não se trata de uma comparação, mas às distâncias (bem às distâncias), o público experimentará sensações similares a aquelas de “Dogville”, do diretor dinamarquês Lars Von Trier. Se no filme alternativo de 2003 Grace (Nicole Kidman) era uma heroína diante de figuras que representam toda a sordidez de nossa sociedade de ontem, de hoje e de sempre, A Mulher do Médico (Julianne Moore) também é posicionada nesta situação, ainda que num cenário ainda mais caótico após uma cegueira branca se alastrar por todo o mundo. E, assim como Grace, A Mulher do Médico tem o poder (a sua imunidade perante a esta “praga indecifrável”) que pode trazer a resolução deste problema, ainda que se comporte passivamente, passando-se também por infectada por este mal.

Meirelles se mantém fiel a estrutura do livro, fazendo com que a identidade de seus personagens ou mesmo o ambiente onde eles transitam seja de pouco válido, e com a fotografia de César Charlone somados as sons compostos por Marco Antônio Guimarães auxiliam que este ensaio de um caos ao qual o título original sugere tenha muito a ver com a forma onde os seres humanos se rebelam em situações de risco e puro desespero. O problema se concentra na transição dos três atos do filme. Bem distintos entre si, a impressão é que Fernando Meirelles se deixou levar por demais na recepção de sua obra em sessões testes ou mesmo de sua premiere em Cannes, realizando alguns cortes que talvez impossibilitou que  a ação inicial como aquela de reclusão e de libertação posterior se unissem com maior harmonia. Entretanto, isto não faz com que o poder do texto de Don McKellar seja totalmente amenizado.

Título Original: Blindness
Ano de Produção: 2008
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: Don McKellar, baseado no romance de José Saramago
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Mitchell Nye, Danny Glover, Gael García Bernal e Sandra Oh
Cotação: ***

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22 Respostas para “Ensaio Sobre a Cegueira

  1. Gostei um pouco mais do filme. Tenho poucas ressalvas, em sua maioria com a adaptação e com a cena do incêndio. De resto acho um belíssimo filme, muito bem atuado, filmado e construído.

    Nota 8,5

    Ciao!

  2. Muito antes do filme estrear eu já sabia que diretor nenhum conseguiria colocar nas telas a obra máxima de José Saramago. A angústia é muita, as tristezas são profundas e só mesmo nas páginas do livo para absorve-las. Mas sobre o filme de Meirelles acho que o diretor conseguiu realizar uma obra forte e interessante, ora chocante, ora emocionante. não há como não se impressionar com o impacto da cena do estupro coletivo por exemplo. Mas diga-se de passagem que Meirelles é muito corajoso e deixou sua marca no cinema. 7,5

  3. Marcelo, ainda não li “Ensaio Sobre a Cegueira”, mas acredito que se deve separar um pouco o universo literário de José Saramago com o filme de Meirelles, vendo que são duas fontes distintas. E admito que houve cenas que me chocaram bastante, especialmente esta do estupro coletivo ao qual você menciona. Mas se Meirelles não estivesse tão inseguro o filme renderia bem mais.

  4. Sua notas são sempre decepcionantes, Alex. hehehehe Brincadeiras a parte, achei um filme muito intenso e esteve presente entre os meus 10 melhores do ano. Eu não sei de onde vem esse insegurança da direção do Meireles e quanto a cena do incêndio, não me lembro como ele ocorre, aí não posso discordar ou não. No mais, tem a melhor atuação feminina de 2008 e uma das melhores fotografias também. Aposto que se a Nicole participasse…. humpf, deixa pra lá.

    []s!

  5. Jeff, não gosto de ficar soltando notas altas para filmes que me são um tanto falhos. E eu não gosto do Meirelles porque ele recusou Nicole Kidman em “O Jardineiro Fiel” para colocar aquela tonta da Rachel Weisz! Agora deixando também as brincadeiras à parte, a cena do incêndio é muito, muito mal feita! Mas eu também gosto da fotografia, assim como o desempenho de Julianne Moore. Abraços!

  6. Olá, Alex! Tudo bem?

    Vi “Ensaio sobre a Cegueira” naquela “ótima” promoção do Cinemark e achei um bom filme (a minha nota para o filme é a mesma que a sua) e recentemente terminei a leitura do livro. Agora que está em DVD, irei rever e quem sabe, minha nota aumente.

    Beijos e tudo de bom! ;)

  7. Nossa, até que enfim alguem com uma visão semelhante a minha. Também senti uma baita insegurança do diretor, principalmente no começo do filme. Aliás, acho o primeiro ato muito ruim e o desfecho fraquinho, voltando a dar a impressão de “correria”. Acho que o desenvolver, o meio do filme salva o mesmo, mas também não vi perfeição no trabalho do Meirelles. Abraços!

  8. Alex, eu acho o seguinte: a essência do livro está no filme. Mas a exclusão e diminuição de cenas importantíssimas me irritou MUUUUUUUUUUUUUUUUUITO! Acredito que isto acabou deixando o filme meio vazio e perceba que ele voa! Esperava, no mínimo, 2h30 de reprodução…

    Minha nota é 7,5.

    Abraços!

  9. A única coisa que me incomodou ligeiramente aqui foi o fato do Meirelles “minimizar” a força da trama em alguns momentos. Alguns críticos americanos disseram que ver esse filme foi uma experiência no mínimo desagradável, o que na minha opinião não poderia ser mais equivocado uma vez que o diretor evitou justaments os momentos mais fortes. De resto, é um filme muito bom!

  10. Mayara, tudo bem, obrigado. E você faz bem em rever o filme depois da leitura ao livro do Saramago. Beijos.

    Cassiano, eu não sei se posso concordar muito, pois não acho que o Meirelles tenha uma sensibilidade como poucos no nosso cinema.

    Alyson, eu gosto demais da conclusão de “Ensaio Sobre a Cegueira”, mas concordo com você em relação do primeiro ato, que é meio deslocado. Abraços.

    Kau, acho que um tempo de duração maior faria com que Meirelles conseguisse se resolver melhor com a sua adaptação, vendo que há coisas de fato bem corridas ao longo da projeção. Abraços.

    Kau, “Ensaio Sobre a Cegueira” é um belo filme, ainda que não muito por causa de seus problemas.

    Vinícius, exatamente. Quando apontei em minha resenha sobre a insegurança do cineasta foi pelo fato de que ele acabou se deixando levar por demais com esses equívocos de imprensa. Houve até declarações de que ele não queria que seu filme fosse um novo “Irreversível”.

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  15. Gostei muito do filme. Acabei de assisti-lo. A fotografia e concepção musical são belíssimas. O elenco é muito bom – notas máximas para o Garcia. Só achei que a narração deveria ter sido ‘esquecida’ ou então reproduzida fielmente. Por que ela deixa o espectador confuso, quase como se ele tivesse perdido ou esquecido algo que foi “dito”. Todavia, o filme conseguiu ser provocador tal qual o livro.

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